Morango capixaba bate recorde com avanço do cultivo semi-hidropônico
Espírito Santo bate recorde com 32,8 mil toneladas de morango. Cultivo semi-hidropônico e substrato desenvolvido pelo Ifes podem elevar a produtividade e reduzir custos.

Espírito Santo colheu 32,8 mil toneladas em 2024, enquanto pesquisa do Ifes desenvolve substrato com resíduos locais para reduzir custos dos produtores
A produção de morango atravessa uma fase de expansão e modernização no Espírito Santo. Em 2024, o Estado colheu 32.884 toneladas da fruta, o maior volume da série recente, com crescimento de 5,4% em relação ao ano anterior.
A área cultivada chegou a 297 hectares, enquanto a produtividade média superou 110 toneladas por hectare. O rendimento é mais que o dobro das aproximadamente 50 toneladas por hectare registradas em 2022, indicando um avanço expressivo da eficiência produtiva.
Os números foram consolidados pela Gerência de Dados e Análises da Secretaria da Agricultura do Espírito Santo, com base em levantamentos do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper). Segundo a Seag, a produção de morango movimentou aproximadamente R$ 396,4 milhões em renda rural em 2024.
O aumento da produção ocorreu sem uma expansão proporcional da área. Em 2022, eram cultivados 293 hectares, apenas quatro hectares a menos do que em 2024. O resultado reforça a influência da tecnologia, do manejo e da adoção de sistemas protegidos sobre o desempenho das lavouras.
Santa Maria de Jetibá concentra 78% da produção
A Região Serrana reúne os principais municípios produtores de morango do Espírito Santo. Santa Maria de Jetibá lidera com ampla vantagem, tendo colhido 25,8 mil toneladas em 2024, o equivalente a 78,46% da produção estadual.
Domingos Martins aparece na segunda posição, com 3.375 toneladas e participação de 10,26%. Venda Nova do Imigrante ocupa o terceiro lugar, com 1,8 mil toneladas, representando 5,47%.
Afonso Cláudio responde por 1,98% da produção, enquanto Castelo representa 1,06%. Juntos, os cinco municípios concentram mais de 97% dos morangos colhidos no território capixaba.
O clima ameno das áreas de montanha, a experiência das famílias produtoras e a proximidade com mercados consumidores favorecem o desenvolvimento da atividade. O cultivo também se conecta ao turismo rural e à produção de doces, geleias e outros alimentos com maior valor agregado.
Sistema semi-hidropônico avança nas propriedades
Parte do ganho de produtividade está associada à expansão do cultivo semi-hidropônico. Nesse modelo, os morangueiros são plantados em substratos instalados sobre bancadas elevadas, geralmente entre 80 centímetros e um metro do chão.
As plantas recebem água e nutrientes por meio da fertirrigação, permitindo maior controle do desenvolvimento da lavoura. Como as raízes não ficam em contato direto com o solo, o sistema também reduz a exposição a algumas doenças.
O cultivo suspenso melhora as condições de trabalho, pois permite que o produtor realize boa parte do manejo em pé. A tecnologia ainda facilita a colheita, o controle da irrigação e o acompanhamento da sanidade das plantas.
A implantação, entretanto, exige um investimento elevado. Além das estufas e bancadas, os produtores precisam adquirir substratos específicos. Boa parte desses produtos é fabricada em outros estados, utilizando principalmente casca de pínus e palha de arroz, o que acrescenta custos de transporte ao valor final.
Ifes desenvolve substrato com matérias-primas capixabas
Para reduzir a dependência de materiais trazidos de outras regiões, pesquisadores do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) desenvolveram uma formulação adaptada à realidade da agricultura capixaba.
A pesquisa faz parte do programa Fortalecimento da Agricultura Capixaba (FortAC) e é coordenada pelo professor Sávio da Silva Berilli. Entre as matérias-primas avaliadas estão palha de café, cama de frango, carvão e outros resíduos orgânicos disponíveis no Estado.
O projeto foi desenvolvido a partir de demandas apresentadas por produtores de morango de Santa Maria de Jetibá. O cadastro do Ifes identifica a pesquisa como uma iniciativa aplicada à sustentabilidade e ao aproveitamento de resíduos na agricultura.
Os primeiros testes apresentaram desempenho abaixo dos substratos industrializados. A equipe realizou ajustes relacionados à capacidade de retenção de água, disponibilidade de nutrientes e condutividade elétrica.
Uma segunda formulação alcançou resultados equivalentes aos materiais comerciais. Na etapa seguinte, os pesquisadores ajustaram as proporções dos componentes para reduzir os custos sem comprometer a qualidade necessária ao desenvolvimento das plantas.
Economia pode chegar a 25% no investimento
O substrato desenvolvido pelo Ifes passa por um processo de compostagem para alcançar estabilidade e segurança de utilização. A vida útil estimada varia entre quatro e seis anos, dependendo das condições de manejo.
De acordo com o coordenador da pesquisa, a infraestrutura representa aproximadamente metade do investimento necessário para instalar uma área semi-hidropônica. O substrato responde pela outra metade.
Com a utilização de uma formulação produzida no Espírito Santo e a redução das despesas com frete, a economia estimada pode chegar a 25% do investimento total de implantação. O percentual poderá variar conforme a propriedade, a distância dos fornecedores e a escala de produção.
A demanda potencial é significativa. Estima-se que os produtores capixabas utilizem aproximadamente 100 toneladas de substrato por mês. Os resultados e as etapas de desenvolvimento da formulação foram apresentados pela equipe responsável pelo projeto.
Além do impacto econômico, o aproveitamento da palha de café, da cama de frango e de outros resíduos pode contribuir para a economia circular no campo, transformando materiais disponíveis nas propriedades em insumos para uma cadeia agrícola de alto valor.
Mercado amplia procura por frutas de qualidade
A valorização do morango também foi impulsionada por tendências de consumo. Em 2025, a popularização do “morango do amor” aumentou a procura por frutos maiores, firmes e visualmente atrativos.
O movimento ampliou a visibilidade da produção capixaba e abriu oportunidades para confeiteiras, agricultores, feiras, restaurantes e pequenos empreendedores.
Com produtividade elevada, concentração regional e novas soluções tecnológicas em desenvolvimento, a cadeia do morango reforça sua participação na agricultura familiar e na economia da Região Serrana do Espírito Santo.
