Clima irregular reduz atributos dos primeiros cafés da safra no Espírito Santo
Clima irregular reduziu doçura, corpo e acidez dos primeiros cafés avaliados pelo Cecafes. Lotes tardios melhoraram, mas maturação desigual e umidade dificultam a safra.

Cecafes avaliou 2,4 mil amostras em 2026; lotes tardios apresentaram melhora, enquanto maturação desigual e umidade dificultaram colheita e secagem
Os primeiros cafés da safra capixaba de 2026 chegaram ao laboratório com menor intensidade de doçura, corpo e acidez. A tendência foi observada pelo Centro de Cafés Especiais do Espírito Santo (Cecafes), em Venda Nova do Imigrante, principalmente nos lotes que amadureceram e foram colhidos mais cedo.
Até setembro, aproximadamente 2,4 mil amostras haviam passado pelo laboratório. A expectativa é alcançar cerca de 4 mil avaliações até dezembro, segundo o coordenador do Cecafes, Douglas Gonzaga de Sousa.
Os resultados iniciais não representam necessariamente toda a produção estadual, porque não foram divulgados dados sobre a distribuição das amostras por município, espécie, variedade, altitude ou método de processamento. Ainda assim, ajudam a identificar problemas que chegaram com frequência ao laboratório durante a safra.
O Cecafes é uma unidade do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) dedicada à classificação física e à avaliação sensorial de cafés arábica e conilon.
Cafés tardios apresentam evolução
De acordo com Gonzaga, alguns lotes precoces apresentaram aromas interessantes, mas não desenvolveram a mesma complexidade na xícara. Os atributos de doçura, acidez e corpo apareceram com menor intensidade.
Nos cafés que amadureceram mais tarde, a avaliação começou a melhorar. A explicação considerada pelo coordenador é que a permanência por mais tempo na planta permitiu um período maior de formação e enchimento dos grãos.
O estágio de maturação é importante para a qualidade porque os frutos maduros possuem desenvolvimento mais completo e maior concentração de açúcares e sólidos solúveis. A presença elevada de frutos verdes pode aumentar a adstringência e reduzir a qualidade sensorial.
A avaliação de cada lote, contudo, também depende de variedade, altitude, nutrição, disponibilidade de água, processamento, fermentação, secagem e armazenamento. Por isso, a diferença encontrada entre cafés precoces e tardios não deve ser atribuída a um único fator.
Diferentes fases aparecem na mesma lavoura
A irregularidade também pode ser observada antes da colheita. Em propriedades de Ibatiba, o cafeicultor Hélio Moreno encontrou simultaneamente botões florais, flores, pequenos frutos, cafés verdes, maduros e secos.
Essa combinação dificulta a escolha do momento adequado para colher. Quando a operação reúne frutos em estágios muito diferentes, o produtor precisa reforçar a separação durante o processamento para evitar que verdes e secos comprometam lotes com maior proporção de cafés maduros.
A colheita seletiva, realizada em mais de uma passagem, pode ajudar na produção de cafés especiais, mas aumenta a necessidade de mão de obra e o custo da operação. Quando ela não for possível, a separação dos frutos por densidade e maturação durante o pós-colheita ganha importância.
O produtor também pode dividir a propriedade em talhões e acompanhar quais áreas apresentam maior proporção de frutos maduros. Essa organização ajuda a definir a ordem da colheita e evita tratar toda a lavoura como se estivesse no mesmo estágio.
Umidade dificultou a secagem
Outro problema identificado pelo Cecafes foi a chegada de amostras com umidade acima do ponto considerado adequado pelo laboratório.
Períodos de chuva, frio e umidade elevada prolongaram a secagem, principalmente nas propriedades que dependem de terreiro e das condições naturais. A dificuldade aumenta quando grandes volumes de café chegam ao mesmo tempo ou quando os lotes possuem frutos com maturação muito desigual.
O teor exato de umidade das amostras não foi informado. Também não foi divulgada a quantidade de lotes afetados. Por isso, não é possível medir, com os dados disponíveis, a dimensão do problema na safra estadual.
Na propriedade, o acompanhamento deve ser feito com equipamento devidamente calibrado e em diferentes pontos do lote. Armazenar o café antes da estabilização da umidade pode favorecer perda de qualidade, fermentações indesejadas e desenvolvimento de microrganismos.
Calor é um dos fatores sob investigação
O coordenador do Cecafes também relaciona parte das alterações ao estresse térmico sofrido pelas plantas. Temperaturas elevadas podem interferir no metabolismo do cafeeiro e na formação dos grãos.
Segundo Gonzaga, esse estresse pode influenciar compostos associados ao amargor da bebida. Os dados apresentados, entretanto, não isolam o efeito da temperatura de outros fatores, como maturação, variedade, nutrição, disponibilidade de água e processamento.
A observação deve ser tratada como uma interpretação técnica baseada nas amostras recebidas, e não como uma relação de causa e efeito comprovada para toda a safra de 2026.
Manejo pode reduzir o estresse da lavoura
O produtor não consegue controlar a temperatura ou a distribuição das chuvas, mas algumas práticas podem melhorar as condições dentro da propriedade.
Manter cobertura vegetal ou palhada protege o solo da exposição direta, ajuda a conservar umidade e reduz as oscilações de temperatura. A reposição de matéria orgânica, quando tecnicamente recomendada, também contribui para a estrutura e a capacidade de retenção de água do solo.
Outras medidas incluem acompanhar a disponibilidade de água, ajustar a irrigação, manter a nutrição equilibrada e evitar capinas que deixem toda a superfície desprotegida. O uso de árvores ou plantas nas bordaduras deve considerar as condições da região, a competição por água e luz e a orientação da assistência técnica.
Para os lotes destinados ao mercado de cafés especiais, o acompanhamento da maturação, a separação dos frutos e o controle da secagem podem ser decisivos. Com novas floradas ocorrendo enquanto parte da safra ainda está na planta, o manejo deverá considerar ciclos cada vez menos uniformes dentro da mesma propriedade.
Redação Valor do Agro
