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Espírito Santo desenvolve mapa semestral das lavouras de café

Metodologia combina imagens de satélite, amostragem e IA para mapear conilon e arábica. Projeto prevê atualizações semestrais e aprimoramento até 2027.

Redação Valor do Agro26/09/20265 min de leitura
Espírito Santo desenvolve mapa semestral das lavouras de café
Imagem ilustrativa gerada por IA

Metodologia combina imagens de satélite, amostragem e inteligência artificial para diferenciar áreas de conilon e arábica e acompanhar mudanças na cafeicultura capixaba

Por Redação Valor do Agro

O Espírito Santo está desenvolvendo uma metodologia para mapear as lavouras de café e acompanhar como as áreas cultivadas mudam ao longo do tempo. A proposta prevê atualizações a cada seis meses e a formação de uma série histórica da cafeicultura capixaba.

A primeira versão do trabalho foi apresentada na quarta-feira (23), durante reunião do Comitê Gestor do Programa de Desenvolvimento Sustentável da Cafeicultura do Espírito Santo, realizada na sede da Secretaria da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca (Seag), em Vitória.

O sistema foi estruturado para diferenciar áreas de café conilon e arábica, além de identificar lavouras em produção, áreas recém-plantadas e talhões em renovação. Os dados deverão ser disponibilizados ao público, mas ainda não foi informada uma data para a abertura da plataforma completa.

Satélite e inteligência artificial reduzem tempo de atualização

A metodologia combina imagens de satélite, amostragem, fotointerpretação e algoritmos de inteligência artificial. O objetivo é reduzir o intervalo entre a coleta das informações e a publicação dos mapas.

De acordo com os pesquisadores envolvidos, levantamentos baseados predominantemente em métodos tradicionais podem levar de dois a três anos. Com a nova abordagem, a expectativa é produzir atualizações em um período de quatro a seis meses.

Esse prazo ainda representa uma meta do projeto, e não um desempenho consolidado da ferramenta em escala estadual.

Para o professor Samuel de Assis Silva, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), no campus de Alegre, informações espaciais mais atuais podem melhorar o planejamento das políticas públicas.

Com atualizações periódicas, será possível observar a expansão, a redução ou o deslocamento das lavouras e planejar ações a partir de uma realidade mais próxima do momento analisado.

Estudo em Rio Bananal alcançou 92% de acurácia

A aplicação dessa linha tecnológica já foi avaliada em Rio Bananal, no Norte do Espírito Santo. Estudo desenvolvido por pesquisadores do Incaper e da Ufes utilizou imagens do satélite Sentinel-2, oito mil pontos amostrais e um algoritmo de aprendizado de máquina para estimar a área ocupada pelo café no município.

O modelo calculou 21.226 hectares cultivados em 2024 e atingiu acurácia global de 92%. Nas avaliações específicas da classe café, os indicadores ficaram entre 87% e 90%.

Os pesquisadores, entretanto, recomendaram a utilização de séries temporais mais extensas e a inclusão de mais amostras coletadas diretamente em campo. Essas medidas podem reduzir erros de interpretação das imagens e aumentar a confiabilidade das estimativas.

Dados públicos já começam a ser disponibilizados

O sistema estadual Geobases já reúne uma camada geoespacial denominada “Parque Cafeeiro – Norte ES – 2025”. O conjunto utiliza imagens Sentinel-2, classificação supervisionada por aprendizado de máquina, fotointerpretação e dados auxiliares de validação.

A camada permite baixar os dados em formatos como planilha, arquivo geográfico e mapa vetorial. A nova metodologia pretende avançar sobre essa base ao estabelecer atualizações regulares e preservar as versões anteriores para comparação histórica.

A construção de uma série histórica permitirá identificar não apenas onde o café está plantado, mas como a ocupação das áreas se modifica entre diferentes períodos.

Mapa pode melhorar estimativas de safra

Conhecer com maior precisão a área plantada é uma das etapas necessárias para calcular a produção esperada. Quando essa informação é combinada com dados de produtividade, clima e desenvolvimento das lavouras, pode contribuir para estimativas de safra mais consistentes.

O mapeamento também poderá orientar ações de assistência técnica, pesquisa, infraestrutura e adaptação climática, além de ajudar o poder público a identificar regiões em expansão, renovação ou redução da atividade.

Segundo o pesquisador Renato Corrêa Taques, do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), a distribuição espacial das lavouras pode apoiar tanto o planejamento público quanto as demandas de rastreabilidade e certificação.

Mapeamento não substitui a rastreabilidade

A localização das lavouras é uma informação importante para atender às exigências de mercados internacionais. No caso do regulamento europeu de produtos livres de desmatamento, por exemplo, a geolocalização das áreas de produção integra o processo de diligência exigido dos operadores.

O mapa estadual, entretanto, não substitui a rastreabilidade de cada lote. Para comprovar a origem de uma carga, ainda será necessário relacionar o produto à propriedade e ao talhão, manter registros de fornecedores e comercialização e apresentar documentos sobre legalidade e avaliação de riscos.

Portanto, a ferramenta deve ser entendida como uma base de apoio para produtores, cooperativas, exportadores e certificadoras, e não como uma certificação automática das propriedades mapeadas.

Cooperativas avaliam integração dos sistemas

As cooperativas capixabas participaram das discussões sobre a metodologia e apresentaram possíveis usos para os dados. A expectativa é que, em uma etapa posterior, o mapeamento possa ser integrado aos sistemas das cooperativas e disponibilizado aos cooperados.

Essa integração ainda não possui cronograma público. Também será necessário definir como ocorrerão a atualização das informações, a correção de divergências e o relacionamento entre os polígonos identificados por satélite e os cadastros de cada propriedade.

Desenvolvimento continuará até 2027

A versão apresentada ainda passará por aprimoramentos até o final de 2027. Entre os objetivos estão elevar a precisão da identificação das lavouras e melhorar a delimitação dos talhões.

Para avaliar a efetividade da ferramenta em escala estadual, ainda será necessário divulgar indicadores como cobertura territorial, resolução espacial, acurácia por região e espécie de café, quantidade de amostras de campo e frequência de validação.

Também permanecem pendentes a data de abertura da plataforma pública e o cronograma das primeiras atualizações semestrais.

O projeto é desenvolvido pelo Governo do Espírito Santo, por meio da Seag e do Incaper, em parceria com a Ufes. Os recursos são provenientes do AL-INVEST Verde, programa financiado pela União Europeia.

Para o produtor, o projeto não cria, neste momento, uma nova obrigação. O benefício esperado é a oferta de uma referência mais atualizada sobre a cafeicultura capixaba, capaz de apoiar decisões públicas e privadas quando a metodologia estiver validada e em operação regular.

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