Café supera tarifaço nos EUA, mas dependência comercial e EUDR mantêm desafios
Café brasileiro está isento das tarifas adicionais dos EUA, mas dependência comercial, rastreabilidade e entrada da EUDR mantêm desafios para o setor.

Todos os tipos de café brasileiro estão isentos das tarifas adicionais norte-americanas, mas queda dos embarques aos EUA e novas regras europeias mantêm diversificação e rastreabilidade como prioridades
As tarifas extraordinárias impostas pelos Estados Unidos em 2025 deixaram de atingir o café brasileiro, mas o episódio continua oferecendo um alerta para a cadeia produtiva. A concentração das vendas em grandes compradores, as dificuldades para exportar produtos industrializados e as exigências crescentes de rastreabilidade permanecem entre os principais desafios do setor.
O café verde brasileiro havia sido incluído nas exceções tarifárias norte-americanas em novembro de 2025. O café solúvel, que permaneceu sujeito à cobrança por mais tempo, também recebeu isenção em julho de 2026. Com isso, todos os tipos de café brasileiro ficaram fora das tarifas adicionais aplicadas pelos Estados Unidos.
A retirada das taxas melhorou as condições comerciais, mas não eliminou os efeitos provocados pelo período de incerteza.
Estados Unidos continuam importantes, apesar da retração
Entre janeiro e agosto de 2026, os Estados Unidos permaneceram como o principal destino individual dos cafés brasileiros. O país importou 3,158 milhões de sacas, equivalentes a 12,6% dos embarques nacionais no período.
O volume, entretanto, ficou 21,6% abaixo do registrado nos oito primeiros meses de 2025. Segundo o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil, o Cecafé, a redução foi influenciada pelas incertezas comerciais criadas desde o anúncio das tarifas.
No total, o Brasil exportou 25,073 milhões de sacas de janeiro a agosto de 2026, queda de 1,2% na comparação anual. A receita cambial somou US$ 8,787 bilhões, recuo de 9,3%.
O desempenho mensal mostrou recuperação em agosto. Os embarques atingiram 4,155 milhões de sacas, maior volume da história para o mês e crescimento de 31% sobre agosto de 2025.
Os números mostram que diversificar destinos não significa abandonar o mercado norte-americano. A estratégia envolve preservar compradores consolidados e, ao mesmo tempo, reduzir o impacto provocado por decisões comerciais concentradas em poucos países.
Café solúvel recupera espaço em 2026
A retirada da tarifa sobre o café solúvel representou uma mudança importante para a indústria brasileira. Os Estados Unidos estão entre os principais compradores do produto e a cobrança reduzia a competitividade diante de fornecedores de outras origens.
Dados divulgados pela Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel, a Abics, mostram que as exportações do segmento alcançaram 65,3 mil toneladas entre janeiro e agosto de 2026, aumento de 12,8% em relação ao mesmo período do ano anterior.
O consumo interno chegou a 19,7 mil toneladas, avanço de 11,9%. A entidade avalia que o setor pode alcançar um resultado recorde em 2026, embora o desempenho final ainda dependa das vendas dos últimos quatro meses do ano.
A recuperação confirma o potencial dos produtos industrializados, mas não resolve outro problema histórico: as tarifas e barreiras encontradas pelo café processado em diferentes mercados costumam ser maiores que aquelas aplicadas ao grão verde.
EUDR começa a valer no fim de 2026
Enquanto a barreira norte-americana perdeu força, as exigências ambientais da União Europeia entraram em uma etapa decisiva.
O Regulamento Europeu de Produtos Livres de Desmatamento, conhecido como EUDR, começará a ser aplicado em 30 de dezembro de 2026 para operadores de médio e grande porte. Para a maioria dos micro e pequenos operadores, o prazo será 30 de junho de 2027.
A regra alcança café, cacau, soja, carne bovina, óleo de palma, borracha, madeira e produtos derivados. Para entrar no mercado europeu, as mercadorias deverão estar vinculadas a áreas que não tenham sofrido desmatamento após 31 de dezembro de 2020, além de cumprir a legislação do país de origem.
Na prática, importadores precisarão apresentar declarações de diligência e informações que permitam identificar a origem da produção. Geolocalização das áreas, documentos de comercialização e mecanismos de separação dos lotes ganham importância nesse processo.
Certificações como 4C, Fairtrade e Rainforest Alliance podem ajudar na organização das propriedades e na comprovação de determinadas práticas. Elas, porém, não substituem automaticamente as obrigações previstas na EUDR. A adequação precisa considerar as exigências do comprador e da legislação europeia.
Café não integra atualmente a taxa de carbono europeia
A discussão sobre balanço de carbono continua relevante para diferenciar o produto brasileiro e desenvolver novos projetos ambientais. Entretanto, é necessário separar essa agenda do Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira da União Europeia, conhecido como CBAM.
Em setembro de 2026, o mecanismo alcança setores como cimento, ferro e aço, alumínio, fertilizantes, eletricidade e hidrogênio. Café e outros produtos agropecuários não fazem parte da lista atual.
Portanto, não existe neste momento uma cobrança do CBAM sobre o café brasileiro. Uma eventual ampliação futura dependeria de nova decisão regulatória da União Europeia.
Projetos que calculam emissões e remoções de carbono nas lavouras podem gerar informações úteis e, dependendo da metodologia utilizada, abrir oportunidades em mercados voluntários. Isso não significa, contudo, que qualquer propriedade com balanço negativo esteja automaticamente apta a emitir ou vender créditos. São necessários metodologia reconhecida, validação, verificação e regras contra dupla contagem.
Avanço das canéforas beneficia a cadeia capixaba
As exportações brasileiras de canéforas, grupo que reúne conilon e robusta, alcançaram 4,339 milhões de sacas entre janeiro e agosto de 2026. O volume cresceu 68,6% em relação ao mesmo período do ano anterior.
O avanço é relevante para o Espírito Santo, principal referência produtiva do conilon brasileiro e importante fornecedor de matéria-prima para a indústria de café solúvel. O dado do Cecafé, entretanto, é nacional e não identifica quanto do volume exportado teve origem em cada estado.
O crescimento dos embarques abre oportunidades para produtores e indústrias, mas aumenta a importância de manter qualidade, regularidade de fornecimento, documentação dos lotes e competitividade logística.
O que muda para o produtor
A preparação para mercados mais exigentes não começa necessariamente pela contratação de uma certificação. O primeiro passo é organizar as informações da propriedade.
O produtor interessado em cadeias exportadoras deve manter atualizados os documentos rurais, mapas e coordenadas das áreas cultivadas, notas fiscais, registros de compra e venda, histórico dos lotes e informações sobre práticas ambientais.
Também é importante conversar com a cooperativa, exportadora ou indústria compradora para identificar quais documentos e protocolos serão exigidos. A certificação deve ser escolhida conforme o mercado pretendido, o custo de adequação e a possibilidade efetiva de retorno comercial.
A experiência com as tarifas dos Estados Unidos demonstrou que acesso a mercados depende tanto da capacidade produtiva quanto da articulação institucional. Com a EUDR próxima de entrar em aplicação, rastreabilidade deixou de ser apenas um diferencial de imagem e passou a integrar as condições comerciais para parte das exportações.
Autoria: Redação Valor do Agro.
Fonte e transparência: esta matéria atualiza conteúdo publicado originalmente em 15 de novembro de 2025. Foram consultados o relatório de exportações de agosto do Cecafé, dados divulgados pela Abics, a página oficial da Comissão Europeia sobre a EUDR e as informações oficiais sobre o CBAM, em 17 de setembro de 2026. As declarações feitas durante a Semana Internacional do Café de 2025 foram tratadas como contexto histórico, e não como manifestações atuais.
