Cultivo semi-hidropônico impulsiona produção de morango no Espírito Santo
Cultivo semi-hidropônico impulsiona a produção de morango no Espírito Santo, melhora a qualidade das frutas e facilita o trabalho, mas exige investimento e assistência técnica.

Sistema com plantas suspensas melhora a produtividade, facilita o trabalho nas propriedades e reduz o contato com fungos do solo; falta de mão de obra e assistência técnica ainda desafia produtores
A expansão do cultivo semi-hidropônico está transformando a produção de morangos no Espírito Santo. A substituição do plantio convencional no solo por sistemas protegidos, com plantas instaladas em bancadas suspensas, tem contribuído para aumentar a produtividade, melhorar a qualidade das frutas e oferecer melhores condições de trabalho aos agricultores.
Os avanços ajudam a explicar o desempenho da cadeia capixaba. Em 2024, o Estado produziu 32.884 toneladas de morango, crescimento de 5,4% em relação ao ano anterior. A cultura ocupou 297 hectares e alcançou produtividade média superior a 110 toneladas por hectare, segundo a Secretaria de Estado da Agricultura (Seag).
A produção movimentou aproximadamente R$ 396,4 milhões em renda rural. Santa Maria de Jetibá liderou o cultivo, com 25,8 mil toneladas, equivalentes a mais de 78% do total estadual. Domingos Martins, com 3.375 toneladas, e Venda Nova do Imigrante, com 1.800 toneladas, completaram as três primeiras posições.
Como funciona o cultivo semi-hidropônico
No sistema semi-hidropônico, as mudas são cultivadas em recipientes ou sacos conhecidos como slabs, preenchidos com substratos que substituem o solo. Esses materiais dão sustentação às raízes, enquanto a água e os nutrientes são fornecidos por fertirrigação.
As bancadas normalmente ficam entre 80 centímetros e um metro de altura. A estrutura permite que o produtor realize atividades como poda, manejo, monitoramento e colheita em pé, reduzindo o esforço físico exigido pelo cultivo convencional.
Como as plantas não ficam diretamente em contato com o solo e permanecem protegidas das chuvas, o sistema também pode diminuir a incidência de algumas doenças. O benefício, entretanto, depende da correta higienização das instalações e do controle da irrigação, da umidade e da nutrição.
A tecnologia pode reduzir a necessidade de determinadas aplicações de defensivos, mas não elimina o risco de pragas e doenças. Ácaros, tripes, fungos e outros problemas continuam exigindo monitoramento constante e manejo adequado.
O Incaper considera o modelo uma alternativa produtiva para a agricultura familiar, especialmente por permitir maior aproveitamento de pequenas áreas.
Conhecimento técnico influencia os resultados
A adoção das estruturas, por si só, não garante maior produtividade. O desempenho depende do domínio de fatores como escolha das mudas, composição do substrato, qualidade da água, equilíbrio nutricional, ventilação e controle da temperatura dentro das estufas.
O técnico de desenvolvimento rural do Incaper Alexandre Neves Mendonça destacou que a transferência de conhecimento é fundamental para que os produtores aproveitem o potencial da tecnologia.
“Quando o produtor consegue aplicar todos os recursos com maestria, ele alcança ótimos resultados, inclusive com tamanho diferenciado do produto. Nossos produtores conseguem alcançar a qualidade no cultivo e produzir morangos maiores, muito saborosos e crocantes”, afirmou.
As avaliações foram apresentadas em agosto de 2025, durante uma reunião da Comissão de Agricultura da Assembleia Legislativa do Espírito Santo sobre o fortalecimento da cadeia produtiva do morango.
Na ocasião, produtores e representantes do setor apontaram a carência de orientação técnica e a dificuldade para contratar mão de obra como dois dos principais obstáculos à expansão da atividade.
Qualidade das mudas também faz diferença
Outro fator associado ao avanço da produção capixaba foi a melhoria da qualidade das mudas. Parte do material utilizado nas propriedades é importada de países como Argentina, Chile e Espanha.
As mudas produzidas em regiões frias chegam ao Brasil com características fisiológicas favoráveis ao desenvolvimento, à uniformidade e à produção de frutos. A escolha deve considerar, porém, a adaptação de cada variedade às condições climáticas e ao mercado atendido pela propriedade.
Para o empresário Edson Cozer, que atua no segmento de insumos e mudas em Santa Maria de Jetibá, a combinação entre material de qualidade, ambiente protegido e sistema semi-hidropônico teve influência expressiva sobre os resultados alcançados no Estado.
Apesar dos avanços, o custo inicial ainda pode dificultar a adoção. O produtor precisa investir em estufas, bancadas, sistema de irrigação, reservatórios, equipamentos para fertirrigação, substratos e mudas.
Por isso, a viabilidade deve ser calculada conforme a escala da propriedade, o custo da mão de obra, a produtividade esperada e os canais disponíveis para comercialização.
Pesquisas receberam R$ 1,24 milhão
A Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes) destinou R$ 1,24 milhão a 11 projetos relacionados à cadeia do morango ao longo de 11 anos, conforme dados apresentados pelo diretor-geral da instituição, Rodrigo Varejão Andreão.
Os estudos envolveram análise econômica da cultura, produção de substratos com aproveitamento de resíduos, controle de pragas, desenvolvimento de bebidas funcionais, produção de mudas e avaliação da cadeia produtiva.
Em balanço oficial, a Fapes destacou a necessidade de aproximar os resultados das pesquisas das demandas dos produtores.
A ampliação da assistência técnica é apontada como uma das condições para que esse conhecimento chegue a mais propriedades. O desafio envolve não apenas a instalação das estruturas, mas a capacitação dos agricultores para controlar diariamente a nutrição, a irrigação e as condições sanitárias da lavoura.
Morango movimenta turismo e agroindústria
A importância econômica da cultura ultrapassa a venda da fruta fresca. Parte da produção é congelada ou transformada em geleias, doces, bebidas, polpas, tortas e outros produtos, ampliando as possibilidades de comercialização.
O morango também fortalece o agroturismo nas regiões de montanha. Propriedades com sistemas de “colha e pague”, hotéis, restaurantes e eventos gastronômicos atraem visitantes e ajudam a distribuir a renda gerada pela atividade.
Entre os principais eventos está a Festa do Morango de Pedra Azul, em Domingos Martins. Em 2026, a celebração chega à 36ª edição e será realizada entre os dias 4 e 6 de setembro, no Centro de Eventos Morangão.
A modernização do cultivo, associada à pesquisa, à assistência técnica e à organização comercial, posiciona o sistema semi-hidropônico como uma tecnologia estratégica para a continuidade do crescimento da cadeia capixaba. O avanço dependerá, contudo, de investimentos acessíveis e de capacitação para que os produtores consigam utilizar corretamente todos os recursos disponíveis.
