Valor do Agro
← Voltar ao portalAgricultura

Surto de Salmonella em ovos na Bélgica reforça importância da rastreabilidade

Surto de Salmonella em ovos na Bélgica teve ao menos 306 casos e envolveu até 2 milhões de unidades. Entenda o papel da rastreabilidade e os limites da comparação com o Brasil.

Redação Valor do Agro25/09/20267 min de leitura
Surto de Salmonella em ovos na Bélgica reforça importância da rastreabilidade
Imagem ilustrativa gerada por IA

Episódio teve ao menos 306 casos e envolveu até 2 milhões de ovos; ocorrência mostra como identificação de origem e resposta rápida reduzem riscos, mas não eliminam falhas

Por Redação Valor do Agro

Um surto de Salmonella associado ao consumo de ovos atingiu pelo menos 306 pessoas na Bélgica. Segundo informações divulgadas em 25 de agosto de 2026 pela agência Reuters, com base na autoridade belga de segurança alimentar, não havia registro de mortes. Até 2 milhões de ovos potencialmente contaminados foram comercializados na Bélgica e em Luxemburgo.

A contaminação foi relacionada a uma granja localizada na região da Flandres. A empresa responsável pela comercialização dos ovos foi identificada como Laerco BV.

Em maio, a autoridade sanitária havia determinado o recolhimento de ovos com os códigos “2-BE-1073-01”, “2-BE-1073-02”, “2-BE-1073-03” e “2-BE-1073-04”. O primeiro recall abrangia produtos com datas de durabilidade mínima entre 8 de maio e 5 de junho de 2026.

Inicialmente, um dos galpões foi interditado. Com o surgimento de novos casos, todo o complexo foi bloqueado e as aves foram eliminadas após um segundo recolhimento, realizado em agosto.

O que a rastreabilidade permitiu identificar

Na União Europeia, as unidades produtoras de ovos devem estar registradas e possuir um número que permita rastrear o produto até a granja de origem. Essa identificação possibilitou relacionar os ovos comercializados aos galpões investigados.

O recall, entretanto, não deve ser interpretado isoladamente como prova de que o sistema funcionou sem falhas. O registro de centenas de pessoas infectadas mostra que uma quantidade expressiva de ovos chegou ao mercado antes da interrupção completa da distribuição.

A rastreabilidade ajudou a limitar o problema, localizar a origem e orientar consumidores, mas não impediu que a contaminação ocorresse. Sistemas de vigilância reduzem riscos por meio de monitoramento, identificação de lotes, recolhimento e comunicação, sem oferecer garantia de risco zero.

A médica-veterinária Roberta Züge, mestre e doutora em Reprodução Animal pela Universidade de São Paulo e conselheira do Conselho Científico Agro Sustentável, avalia que a segurança de uma cadeia de alimentos depende especialmente da capacidade de identificar ocorrências, isolar os lotes e responder com rapidez.

Como a bactéria pode chegar ao ovo

A Salmonella Enteritidis pode estar relacionada tanto à contaminação externa da casca quanto à contaminação interna do ovo. A Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos considera os ovos contaminados interna ou externamente entre as possíveis vias de exposição humana à bactéria.

As aves infectadas podem não apresentar sinais evidentes. Por isso, a aparência normal da galinha ou do ovo não é suficiente para afastar o risco microbiológico.

A salmonelose pode provocar diarreia, febre, vômitos, dores abdominais, perda de apetite e mal-estar. Crianças, idosos e pessoas com imunidade comprometida podem apresentar maior risco de complicações.

O alcance das regras brasileiras

O Brasil possui diferentes normas para registro de estabelecimentos, biosseguridade, controle sanitário, processamento e inspeção de produtos avícolas. O Programa Nacional de Sanidade Avícola (PNSA) foi instituído em 1994 e contempla a prevenção e o controle de enfermidades de interesse para a avicultura e para a saúde pública.

A Instrução Normativa nº 56/2007 estabelece procedimentos de registro, fiscalização e controle de estabelecimentos avícolas comerciais, de reprodução, ensino e pesquisa. Já a Instrução Normativa nº 78/2003 trata do controle e da certificação de núcleos e estabelecimentos para diferentes tipos de Salmonella.

É necessário cuidado, porém, ao citar a Instrução Normativa nº 20/2016 como uma regra geral para toda a produção de ovos. Essa norma disciplina o monitoramento de Salmonella em estabelecimentos comerciais de frangos e perus de corte e em unidades de abate registradas no Serviço de Inspeção Federal. Ela não pode ser apresentada, isoladamente, como o protocolo nacional aplicável a todas as granjas de postura comercial.

Na inspeção de ovos, a Portaria SDA/Mapa nº 1.179/2024 estabelece requisitos para granjas avícolas e unidades de beneficiamento. Entre eles estão a ovoscopia, a separação de ovos impróprios, a prevenção da contaminação cruzada e o controle da origem dos lotes recebidos. Ovos entregues a granel diretamente por produtores devem ser acompanhados por documentos que identifiquem origem, quantidade e lote.

O grau de controle também depende do tipo de estabelecimento, do serviço de inspeção responsável, do mercado atendido e da capacidade de fiscalização. Por isso, não há base suficiente para classificar genericamente a legislação brasileira como “uma das mais rígidas do mundo” sem um estudo comparativo entre países.

Salmonella e influenza aviária são problemas diferentes

A comparação com os embargos impostos ao frango brasileiro exige outra ressalva. As restrições adotadas após o foco de influenza aviária de alta patogenicidade registrado em uma granja comercial do Rio Grande do Sul, em maio de 2025, estavam relacionadas a uma doença viral das aves — e não à presença de Salmonella em ovos.

O Brasil concluiu as medidas de erradicação daquele foco e recuperou o status de país livre de influenza aviária de alta patogenicidade em aves comerciais. A União Europeia reabriu seu mercado para carne de frango e de peru brasileira em setembro de 2025.

Esse resultado demonstra capacidade de resposta a uma emergência sanitária específica, mas não funciona como certificação ampla de ausência de outros riscos microbiológicos.

Além disso, em setembro de 2026, produtos brasileiros de origem animal enfrentavam novas restrições europeias relacionadas às regras sobre uso de antimicrobianos. O tema também é diferente da influenza aviária e da Salmonella.

O que produtores e estabelecimentos podem fazer

O episódio europeu reforça a importância de manter registros que permitam localizar rapidamente cada lote, incluindo origem, data de produção, galpão, classificação e destino comercial.

Também são fundamentais o controle de acesso às instalações, a higienização dos equipamentos, o combate a roedores e outros vetores, a separação de lotes, o cumprimento dos programas sanitários aplicáveis e a comunicação imediata ao serviço oficial quando houver resultado positivo ou suspeita relevante.

Os procedimentos concretos devem ser definidos conforme o sistema produtivo, o serviço de inspeção e a legislação aplicável ao estabelecimento. Protocolos destinados à avicultura de corte não devem ser simplesmente transferidos para a postura comercial sem avaliação técnica.

Cuidados para o consumidor

O consumidor deve dar preferência a ovos de origem identificada e submetidos ao serviço de inspeção competente, além de conservar a embalagem até o fim do consumo. A identificação facilita a conferência do lote em caso de alerta ou recolhimento.

O Ministério da Saúde recomenda manter os ovos refrigerados, evitando a porta da geladeira, lavar as mãos durante o preparo e consumir ovos bem cozidos. Para ovos cozidos, a orientação oficial é fervê-los por pelo menos sete minutos.

Produtos incluídos em um recall não devem ser consumidos, mesmo quando apresentam aparência e cheiro normais. O consumidor deve seguir a orientação da autoridade sanitária ou devolvê-los ao estabelecimento indicado.

Limitações das informações disponíveis

Até 25 de setembro de 2026, as fontes consultadas confirmavam a comercialização dos ovos potencialmente contaminados na Bélgica e em Luxemburgo. Não foi localizada, nas fontes oficiais utilizadas nesta apuração, confirmação suficiente de distribuição dos mesmos lotes para França, Países Baixos, Itália e Portugal.

Os 2 milhões de ovos representam uma estimativa, enquanto o número de casos pode ser maior porque infecções leves ou assintomáticas nem sempre são diagnosticadas. Também não há relação entre o episódio belga e ovos produzidos ou comercializados no Brasil.

Fontes e transparência

A matéria foi elaborada com informações da Agência Federal para a Segurança da Cadeia Alimentar da Bélgica, Reuters, Comissão Europeia, Ministério da Agricultura e Pecuária, Ministério da Saúde e Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos.

A análise original de Roberta Züge foi tratada como fonte especializada e institucional. As afirmações regulatórias e sanitárias foram confrontadas com documentos oficiais, e os trechos que não puderam ser confirmados foram retirados ou apresentados com ressalvas.

Compartilhe esta matériaLeve informação de qualidade a quem movimenta o agro.