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Frio entre 8°C e 10°C aumenta risco de corte negro em mangas, aponta estudo

Frio de 8°C a 10°C e colheita precoce elevaram o corte negro em mangas. O 1-MCP reduziu a incidência do distúrbio, mas não eliminou o problema.

Tiago Francisco de Jesus15/09/20264 min de leitura
Frio entre 8°C e 10°C aumenta risco de corte negro em mangas, aponta estudo
Imagem ilustrativa gerada por IA

Pesquisa da Embrapa mostra que estágio de maturação, temperatura de armazenamento e aplicação de 1-MCP podem reduzir o escurecimento interno e as perdas na exportação

Uma manga pode chegar ao destino com aparência externa normal e, ainda assim, apresentar a polpa escurecida ao ser cortada. Conhecido como corte negro, esse distúrbio fisiológico está relacionado à exposição dos frutos ao frio durante o armazenamento e o transporte refrigerado.

Pesquisa desenvolvida durante três anos pela Embrapa Semiárido confirmou que o risco aumenta quando mangas suscetíveis são colhidas em estágios menos avançados de maturação e armazenadas em temperaturas entre 8°C e 10°C.

Os resultados foram publicados no Journal of the Science of Food and Agriculture. O estudo avaliou as cultivares Tommy Atkins, Kent, Palmer e Keitt, importantes para a produção e a comercialização da fruta.

Dano interno pode passar despercebido

O corte negro provoca o aparecimento de áreas de coloração marrom-escura ou preta na polpa, geralmente próximas ao caroço. Como nem sempre há sinais visíveis na casca, o problema pode passar despercebido durante a classificação e a inspeção dos frutos.

A descoberta do dano somente no destino comercial aumenta o risco de rejeição de cargas, reclamações de compradores e perdas para produtores, embaladores e exportadores.

Em uma das etapas da pesquisa, mangas Tommy Atkins, Kent e Palmer, colhidas em dois estágios de maturação, permaneceram durante 30 dias sob temperaturas de 8°C, 10°C ou 12,5°C. Depois, foram mantidas por mais sete dias a 20°C, simulando o período de comercialização.

Os pesquisadores observaram maior incidência do corte negro nos frutos menos maduros armazenados a 8°C e 10°C. Nos lotes mantidos a 12,5°C, o distúrbio não foi identificado nas condições avaliadas pelo experimento.

O resultado não significa, entretanto, que 12,5°C seja uma recomendação única para todas as operações. A definição da temperatura deve considerar cultivar, duração da viagem, estágio de maturação, destino da carga e riscos de perda de firmeza ou desenvolvimento de doenças.

1-MCP reduziu incidência, mas não eliminou problema

Outra etapa avaliou o uso do 1-metilciclopropeno, conhecido como 1-MCP, nas cultivares Tommy Atkins e Keitt. O composto bloqueia temporariamente a ação do etileno, hormônio vegetal envolvido no amadurecimento.

As mangas foram tratadas com diferentes concentrações e armazenadas durante 45 dias a 9°C, seguidos por sete dias a 20°C.

Nos frutos sem tratamento, a incidência do corte negro chegou perto de 100%. Com a aplicação de 200 nanolitros por litro de 1-MCP, ficou abaixo de 60%. A concentração apresentou desempenho semelhante ao das doses mais elevadas testadas.

O tratamento também ajudou a conservar a firmeza e a capacidade antioxidante dos frutos. Mesmo assim, os números mostram que o 1-MCP não eliminou o corte negro. A tecnologia deve integrar um conjunto de cuidados, e não ser tratada como solução isolada.

A adoção comercial também precisa observar as condições de cada empreendimento, as exigências do mercado de destino e as orientações técnicas e regulatórias aplicáveis.

Resultado tem impacto sobre o Vale do São Francisco

A descoberta é especialmente relevante para o Vale do São Francisco, responsável por mais de 90% das exportações brasileiras de manga, segundo os pesquisadores.

Longos períodos entre a colheita e a chegada da fruta ao consumidor exigem controle rigoroso da cadeia de frio. Uma temperatura muito alta pode acelerar o amadurecimento, enquanto o frio excessivo pode causar danos fisiológicos em cultivares sensíveis.

As estratégias analisadas incluem:

  • colher os frutos em estágio de maturação adequado ao destino e ao tempo de transporte;
  • ajustar a temperatura conforme a cultivar e a duração da viagem;
  • reduzir o intervalo entre colheita, tratamento e embarque;
  • monitorar continuamente a cadeia de frio;
  • avaliar o uso de atmosfera controlada e de 1-MCP;
  • acompanhar a qualidade interna, e não apenas a aparência da casca.

Empresas do setor já vêm ajustando ponto e horário de colheita, condições de armazenamento, tempo até o embarque e aplicação de 1-MCP. A pesquisa oferece base científica para aperfeiçoar essas decisões.

Método preditivo ainda está em desenvolvimento

A Embrapa também trabalha no desenvolvimento de métodos não destrutivos para identificar, ainda na colheita, os frutos com maior probabilidade de apresentar o distúrbio.

Uma ferramenta desse tipo poderia permitir a separação de mangas suscetíveis antes da formação das cargas destinadas a viagens longas. A tecnologia, porém, ainda está em fase de pesquisa e não constitui um procedimento comercial consolidado.

O estudo foi realizado em condições experimentais controladas. Portanto, não estabelece uma combinação universal de temperatura, maturação e dose de 1-MCP para todas as cultivares e rotas de exportação. Também não apresenta uma análise completa dos custos de adoção das estratégias.

Os resultados detalhados podem ser consultados no artigo científico e no repositório Alice da Embrapa.

Autoria: Redação Valor do Agro

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