Crédito restrito e redução do seguro rural pressionam o agro, alerta CNA
Bruno Lucchi, da CNA, alerta para crédito restrito, endividamento e redução do seguro rural, mas destaca irrigação e tecnologia como diferenciais do agro capixaba.

Bruno Lucchi aponta dificuldades para financiar a produção, mas destaca irrigação, tecnologia e organização dos produtores como diferenciais do Espírito Santo
O aumento do endividamento, as dificuldades para obter novos financiamentos e a redução da proteção oferecida pelo seguro rural estão entre os principais desafios do agronegócio brasileiro. A avaliação é do diretor técnico da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Bruno Lucchi, que defende a ampliação das fontes de recursos para sustentar os investimentos nas propriedades.
Segundo o dirigente, perdas provocadas pelo clima e oscilações de mercado comprometeram a capacidade financeira de parte dos produtores. Com maior percepção de risco, os bancos passaram a restringir a concessão de crédito, dificultando o financiamento das safras seguintes.
No Espírito Santo, esse cenário também preocupa. Lucchi considera, porém, que a organização do setor, a adoção de tecnologia e a presença da irrigação oferecem melhores condições para enfrentar as adversidades.
Endividamento dificulta novos financiamentos
Para o diretor técnico da CNA, o problema vai além do volume de recursos anunciado a cada Plano Safra. A questão central é quanto desse dinheiro efetivamente chega ao produtor e em quais condições.
Lucchi cita uma redução de 11% no volume aplicado no último ciclo e de 38% no primeiro mês do plano atual, em comparação com o mesmo período da temporada anterior.
“Hoje, o Plano Safra vem sendo menor a cada ano em relação ao volume aplicado”, afirma.
Os percentuais foram apresentados pelo dirigente sem detalhamento das modalidades e da base de comparação. Por isso, não devem ser interpretados como uma redução equivalente no orçamento anunciado ou em todas as fontes de financiamento do agronegócio.
A distinção é importante: recursos programados, contratos firmados e valores desembolsados representam etapas diferentes. Além disso, levantamentos podem apresentar resultados distintos conforme incluam crédito privado, agricultura familiar e operações com Cédulas de Produto Rural.
A dificuldade de acesso já havia sido registrada pela CNA em debates sobre o Plano Safra 2026/27. A entidade relatou redução de limites bancários, exigência de garantias mais robustas e busca por fontes privadas de financiamento. Confira o diagnóstico divulgado pela CNA.
Seguro rural menor amplia a exposição às perdas
A restrição financeira ocorre em um momento no qual, segundo Lucchi, o produtor também encontra menos proteção contra os riscos climáticos.
O dirigente alerta que a redução dos recursos destinados ao seguro rural e o encolhimento da área segurada deixam as propriedades mais vulneráveis. Quando uma perda de produção não encontra cobertura suficiente, a dificuldade para pagar compromissos pode se prolongar para os ciclos seguintes.
A preocupação aparece em manifestações de outras entidades do setor. Em junho, o Sistema FAEP contestou um corte de R$ 56,2 milhões no Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), conforme nota publicada no portal da CNA.
Lucchi também relaciona a necessidade de fortalecer a gestão de risco à possibilidade de intensificação do El Niño.
No Espírito Santo, o portal oficial Alerta! aponta temperaturas acima da média e agravamento das condições de seca entre os impactos esperados do fenômeno. São projeções que exigem acompanhamento contínuo, e não uma previsão de perdas uniformes em todas as propriedades. Veja as informações do Alerta! para o estado.
Crédito privado ganha espaço, mas enfrenta barreiras
Diante das limitações do financiamento bancário, instrumentos como as Cédulas de Produto Rural, conhecidas como CPRs, passaram a ocupar espaço importante na captação de recursos.
Na avaliação de Lucchi, o mercado privado oferece possibilidades de financiamento, mas ainda precisa aprofundar o conhecimento sobre as particularidades do campo.
Diferenças entre culturas, regiões, ciclos produtivos e condições climáticas influenciam o risco de cada operação. Para o dirigente, o desconhecimento dessas características contribui para a cautela dos investidores e limita a velocidade de expansão dos recursos.
Segundo ele, a CNA trabalha para melhorar o ambiente de negócios, ampliar a eficiência do crédito público e privado e desenvolver alternativas que permitam ao produtor continuar investindo.
Irrigação e tecnologia são diferenciais capixabas
Apesar das dificuldades nacionais, Lucchi destaca a capacidade de reação da agricultura capixaba. Na avaliação dele, a utilização de tecnologia está presente tanto em propriedades maiores quanto na produção de menor escala.
“O Espírito Santo tem um agro muito pujante. É um estado muito bem organizado”, afirma.
A irrigação aparece entre as principais vantagens competitivas citadas pelo diretor. Ao complementar o fornecimento de água, a estrutura pode reduzir parte dos efeitos de períodos com pouca chuva.
Isso não significa, contudo, proteção completa contra os extremos climáticos. A operação depende da disponibilidade de água, e temperaturas elevadas podem continuar prejudicando as lavouras mesmo quando o abastecimento hídrico está adequado.
Para Lucchi, o estado também se destaca pela aplicação de conhecimento na fruticultura e no café conilon, tornando-se referência para outras regiões produtoras.
Insumos e transporte pesam sobre a produção
A modernização das propriedades não elimina os obstáculos de custo. O diretor técnico da CNA cita fertilizantes, transporte e dependência de insumos adquiridos em outras regiões entre os fatores que pressionam a atividade no Espírito Santo.
Na avicultura de postura, a compra de milho e soja de outros estados acrescenta o frete à conta da alimentação dos plantéis. Dessa forma, os produtores ficam expostos tanto às oscilações dos grãos quanto às despesas logísticas.
O desafio, segundo a avaliação apresentada, é preservar a competitividade em um ambiente no qual produzir exige recursos, mas a contratação de novos financiamentos se tornou mais difícil.
Pinheiros se destaca pela busca por inovação
Ao comentar o desenvolvimento de Pinheiros, no Norte capixaba, Lucchi destaca a disposição dos produtores para conhecer tecnologias e experiências de outras regiões do Brasil e do exterior.
Para ele, essa busca por conhecimento ajuda a explicar a evolução produtiva do município e sua participação no agronegócio estadual.
“O produtor é ávido por tecnologia, busca conhecimento e percorre o Brasil e o mundo atrás do que realmente pode trazer inovação”, afirma.
O dirigente considera que o setor atravessa mais um ciclo de dificuldades. Sua avaliação é que a capacidade de adaptação dos produtores capixabas pode ajudar na recuperação, desde que existam condições para manter os investimentos e administrar os riscos.
O desafio reúne, portanto, três frentes: acesso ao financiamento, proteção contra perdas e continuidade da modernização das propriedades.
