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Entregas de fertilizantes caem 5,4% e compradores antecipam negociações

Queda de 5,4% nas entregas, restrições externas e crédito mais seletivo elevam a procura por fertilizantes já disponíveis no Brasil.

Redação Valor do Agro24/09/20265 min de leitura
Entregas de fertilizantes caem 5,4% e compradores antecipam negociações
Imagem ilustrativa gerada por IA

Restrições internacionais, crédito mais seletivo e riscos logísticos aumentam a procura por produtos já disponíveis no Brasil; fosfatados seguem sob maior pressão

As entregas de fertilizantes ao mercado brasileiro recuaram 5,4% no primeiro semestre de 2026, em meio às restrições no comércio internacional, às dificuldades de crédito e às incertezas relacionadas à logística.

Segundo dados da Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda), divulgados por veículos especializados, foram entregues 19,02 milhões de toneladas entre janeiro e junho. No mesmo período de 2025, o volume havia alcançado 20,11 milhões de toneladas.

O resultado tem levado compradores a antecipar negociações e procurar fertilizantes já nacionalizados — produtos importados que passaram pelo desembaraço aduaneiro e estão disponíveis no país. Essa condição pode reduzir o risco relacionado ao transporte marítimo, aos portos e aos prazos de importação, mas não significa que o produto tenha sido fabricado no Brasil nem garante menor preço.

O recuo nas entregas também não representa, isoladamente, falta generalizada de fertilizantes. Os dados indicam uma redução do volume movimentado em um mercado afetado simultaneamente pela oferta internacional, pelo custo do crédito e pela capacidade financeira dos produtores.

Entre janeiro e julho, o Brasil importou 22,4 milhões de toneladas de fertilizantes, queda de 7,4% em relação ao mesmo período de 2025. Apesar do menor volume, as despesas com as importações cresceram 7,3%, alcançando US$ 8,8 bilhões.

Fosfatados concentram maior pressão

Os fertilizantes fosfatados estão entre os produtos que exigem maior atenção. Restrições impostas por países fornecedores, custos elevados das matérias-primas e menor quantidade de fontes disponíveis dificultam a substituição desses produtos.

Em março, a China restringiu as exportações de algumas formulações nitrogenadas e potássicas e de determinados fertilizantes fosfatados. O país adotou as medidas para proteger seu mercado interno diante da elevação dos preços internacionais.

A decisão atingiu um fornecedor importante para o Brasil. Nos sete primeiros meses de 2026, as importações brasileiras provenientes da China recuaram 20%. No mesmo período, o país ampliou as compras feitas no Canadá, no Marrocos e no Turcomenistão.

Mesmo com as restrições, o comportamento dos preços não foi uniforme. Levantamento da Consultoria Agro Itaú BBA mostrou que o MAP estava cotado a US$ 855 por tonelada em agosto, enquanto o superfosfato simples, conhecido como SSP, alcançava US$ 245 por tonelada.

Os preços dos fosfatados apresentaram algum recuo, mas a relação de troca continuou desfavorável, principalmente no caso do MAP. A redução recente esteve relacionada, em parte, ao enfraquecimento da demanda brasileira, e não necessariamente a uma recuperação estrutural da oferta mundial.

Diretor de empresa aponta risco logístico

O engenheiro agrônomo Rafael Simões de Almeida, diretor da unidade de fertilizantes da AgriConnection, empresa que atua na comercialização e no fornecimento desses insumos, avalia que o mercado enfrenta uma combinação de pressões geopolíticas, financeiras e logísticas.

Segundo o executivo, produtores que deixaram as compras para mais perto do período de aplicação podem encontrar menor disponibilidade ou dificuldade para receber os produtos dentro da janela adequada.

A avaliação deve ser considerada dentro do contexto comercial da fonte. A empresa dirigida por Almeida atua justamente na negociação de fertilizantes e na busca por fornecedores nacionais e internacionais.

Nitrogenados recuam, mas riscos permanecem

No mercado de nitrogenados, a menor disponibilidade de ureia proveniente do Oriente Médio estimulou a procura por outras origens e fontes de nitrogênio. O sulfato de amônio produzido na China foi uma das alternativas que ganharam espaço.

Os preços, entretanto, recuaram em agosto. A ureia passou de US$ 482,50 por tonelada no início do mês para US$ 422 no final do período. O sulfato de amônio caiu de US$ 262,50 para US$ 220 por tonelada.

Essa redução mostra que o ambiente de risco internacional não resulta necessariamente em aumento contínuo das cotações. Oferta, demanda, câmbio, frete, crédito e capacidade de compra do produtor também interferem na formação dos preços.

Troca entre fontes não deve ser feita na mesma proporção

A substituição da ureia pelo sulfato de amônio não pode ser feita apenas pela comparação do preço por tonelada. De acordo com informações técnicas da Embrapa, a ureia possui aproximadamente 45% de nitrogênio. O sulfato de amônio apresenta cerca de 21% de nitrogênio e 23% de enxofre.

Isso significa que uma tonelada de ureia fornece aproximadamente 450 quilos de nitrogênio, enquanto uma tonelada de sulfato de amônio fornece em torno de 210 quilos. Em contrapartida, o sulfato também fornece enxofre, nutriente que pode ser necessário em determinadas áreas.

A comparação deve considerar o custo do quilo de nutriente efetivamente entregue na propriedade, a necessidade de enxofre, o frete, a dose recomendada, as características do solo e as possíveis perdas durante a aplicação.

Antes de fechar a compra, o produtor deve verificar:

  • a recomendação de adubação baseada em análise do solo;
  • a concentração de nutrientes de cada produto;
  • o custo por quilo de nutriente, incluindo o frete;
  • a existência física do produto e o prazo contratual de entrega;
  • as condições de pagamento e o custo do crédito;
  • o registro, a origem e as garantias de qualidade do fertilizante.

Decisão depende da realidade de cada propriedade

Para os produtores do Espírito Santo, as oscilações podem afetar os custos de cadeias como café, pimenta-do-reino, mamão, frutas e hortaliças. No entanto, não foram apresentados preços regionais que permitam dimensionar o impacto específico sobre as propriedades capixabas.

A antecipação das compras pode reduzir riscos logísticos, mas não constitui uma recomendação válida para todos os produtores. A decisão depende do fluxo de caixa, da relação de troca da cultura, da necessidade agronômica e da segurança oferecida pelo fornecedor.

Em um mercado volátil, a estratégia mais segura é comparar produtos pelo nutriente fornecido, confirmar a disponibilidade física e alinhar a contratação ao planejamento técnico e financeiro da propriedade.

Autoria: Redação Valor do Agro

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