Valor do Agro
← Voltar ao portalAgricultura

Produção de citros recua no Espírito Santo e produtores reforçam cuidados com os pomares

Produção capixaba de laranja, limão e tangerina recua em 2024. Clima, custos, doenças e mudas incompatíveis desafiam produtores e exigem mais planejamento na formação dos pomares.

Redação Valor do Agro05/08/20265 min de leitura
Produção de citros recua no Espírito Santo e produtores reforçam cuidados com os pomares
Imagem ilustrativa gerada por IA

Safra de laranja, limão e tangerina diminuiu em 2024; doenças, custos elevados e mudas incompatíveis estão entre os desafios da citricultura capixaba

A produção capixaba de laranja, limão e tangerina apresentou redução em 2024. Apesar do recuo, a citricultura permanece como uma atividade importante para a diversificação das propriedades rurais e para a geração de renda em diferentes regiões do Espírito Santo.

Além das oscilações climáticas e da alternância produtiva natural dos pomares, os agricultores enfrentam custos elevados, escassez de mão de obra e desafios fitossanitários. Em algumas propriedades, problemas de incompatibilidade entre variedades e porta-enxertos também exigem intervenções para evitar a perda das plantas.

Produção de laranja cai 18% no Espírito Santo

A produção estadual de laranja chegou a 19,8 mil toneladas em 2024, queda de 18% em comparação com as 24,2 mil toneladas colhidas no ano anterior.

A área colhida diminuiu de 1.803 para 1.690 hectares. O rendimento médio também recuou, passando de 13.447 para 11.749 quilos por hectare.

Mesmo com o resultado, os dados históricos mostram uma trajetória de recuperação entre 2017 e 2023. Nesse intervalo, a área dedicada à cultura aumentou 35% e a produção cresceu 31%, alcançando o maior volume da série em 2023.

Pinheiros liderou a produção de laranja em 2024, com 3.040 toneladas, equivalentes a 15,31% do total estadual. Na sequência aparecem Linhares, com 1.800 toneladas; Jerônimo Monteiro, com 1.710; São Domingos do Norte, com 1.060; e Marataízes, com 1.050 toneladas.

Juntos, os cinco municípios responderam por 43,6% da produção capixaba.

Área de limão alcança maior patamar da década

A produção de limão também apresentou leve redução, passando de 21,8 mil toneladas em 2023 para 20,6 mil toneladas em 2024. O volume, entretanto, permanece acima da média registrada entre 2014 e 2019.

A área colhida continuou crescendo. Em dez anos, avançou de 563 para 980 hectares, atingindo o maior patamar da série histórica. O movimento demonstra maior interesse dos produtores pela cultura e reforça o processo de diversificação da fruticultura estadual.

O rendimento médio ficou em 21.027 quilos por hectare em 2024. O desempenho foi inferior aos picos próximos de 23 mil quilos por hectare observados em anos anteriores.

São Mateus ocupou a primeira posição no ranking estadual, com 4.360 toneladas, representando 21,16% da produção. Linhares aparece em seguida, com 3.133 toneladas, além de Itarana, com 2.475; Pinheiros, com 2.400; e Pedro Canário, com 1.800 toneladas.

Esses cinco municípios concentraram aproximadamente 68% do limão produzido no Espírito Santo.

Domingos Martins concentra produção de tangerina

A safra capixaba de tangerina encerrou 2024 com 27,5 mil toneladas, abaixo das 31,6 mil toneladas registradas em 2023.

A área colhida recuou de 1.376 para 1.344 hectares, enquanto o rendimento médio caiu para 20.481 quilos por hectare. Apesar da retração, a cultura mantém produtividade elevada e área relativamente estável.

O maior volume da última década foi registrado em 2020, quando a produção estadual alcançou 37,9 mil toneladas.

Domingos Martins respondeu sozinho por 13.260 toneladas em 2024, o equivalente a 48,17% do total. Também se destacaram Santa Leopoldina, com 2.240 toneladas; Marechal Floriano, com 2.131; Conceição do Castelo, com 1.854; e Alfredo Chaves, com 1.220 toneladas.

A altitude, o clima ameno e a tradição agrícola das regiões serranas favorecem o cultivo e contribuem para a qualidade das frutas.

Doenças e custos pressionam a citricultura

Segundo o pesquisador Flávio de Lima Alves, do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), a citricultura estadual enfrentou um período crítico entre 2001 e 2008.

Naquele período, pomares precisaram ser erradicados em razão da pinta-preta. Os produtores também tiveram de substituir o limão-cravo utilizado como porta-enxerto, devido à sua suscetibilidade à morte súbita dos citros.

A pinta-preta continua exigindo monitoramento, mesmo com a existência de métodos de controle. Conforme o pesquisador, o Espírito Santo permanece livre do greening, uma das doenças mais destrutivas da citricultura mundial.

A compra de mudas sem procedência, entretanto, aumenta o risco de introdução de pragas e doenças. Por isso, a aquisição em viveiros certificados e o acompanhamento técnico são fundamentais para proteger os pomares.

A escassez e o custo da mão de obra também pressionam as despesas dos produtores. Outro desafio apontado pelo pesquisador é ampliar o consumo de frutas cítricas, fortalecendo o mercado e a competitividade da produção local diante da entrada de produtos de outros estados.

Incompatibilidade de mudas causa prejuízos em Linhares

Produtores de Linhares também enfrentam problemas provocados pela incompatibilidade entre a variedade enxertada, chamada de copa, e o porta-enxerto, conhecido como cavalo.

Um dos casos envolve mudas de laranja Valência Tuxpan enxertadas sobre Citrandarin Índio. A combinação apresentou rachaduras nos troncos, engrossamentos anormais e falhas no fluxo de seiva.

Problemas semelhantes podem ocorrer entre a laranja-pera e porta-enxertos híbridos como Citrandarin Riverside, Índio, San Diego e Citrumelo Swingle.

Segundo Alves, milhares de árvores precisaram passar por subenxertia depois que produtores receberam mudas com combinações inadequadas.

Subenxertia ajuda a recuperar os pomares

A subenxertia consiste na instalação de novos porta-enxertos junto à planta já estabelecida. Nos pomares afetados, dois novos cavalos são inseridos lateralmente no tronco para melhorar o sistema radicular, restabelecer o fluxo de seiva e recuperar a estabilidade da árvore.

Embora possa evitar a perda total do pomar, a técnica exige mão de obra especializada, aumenta os custos e demanda tempo para a recuperação das plantas.

Por isso, o Incaper recomenda que os produtores adquiram mudas apenas em viveiros certificados, com rastreabilidade e garantia da combinação correta entre copa e porta-enxerto.

O planejamento também precisa começar com antecedência. A recomendação é encomendar as mudas pelo menos um ano e meio antes do plantio, evitando compras de última hora e materiais sem origem comprovada.

O Espírito Santo possui viveiros tradicionais e capacitados para fornecer mudas cítricas de qualidade. A utilização desses fornecedores reduz riscos sanitários e ajuda a garantir a implantação de pomares mais produtivos e duradouros.

Fonte: dados da produção agrícola estadual e informações técnicas do Incaper.

Compartilhe esta matériaLeve informação de qualidade a quem movimenta o agro.