Seca moderada atinge todo o Espírito Santo e coloca captações de água em alerta
Seca moderada atinge todo o Espírito Santo, coloca 28 pontos de captação em atenção ou estado crítico e mantém rios com vazões abaixo do esperado para agosto.

Boletim aponta 25 pontos de captação em atenção e três em estado crítico; rios seguem com vazões reduzidas e cenário exige cautela no abastecimento e nas atividades agropecuárias
A seca ganhou intensidade e passou a atingir todo o Espírito Santo em nível moderado. Em junho, os 100% do território capixaba afetados pelo fenômeno ainda estavam classificados com seca fraca. A mudança ocorreu em apenas um mês, conforme o Monitor de Secas da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA).
Os dados integram o quinto boletim do Centro Integrado de Comando e Controle para o Enfrentamento dos Impactos do El Niño 2026/2027, atualizado em 17 de agosto e disponibilizado pelo sistema Alerta! do Governo do Espírito Santo.
A classificação de seca moderada indica possibilidade de prejuízos às lavouras e pastagens, perda de qualidade das forragens, redução da produção de leite, queda dos níveis de rios, reservatórios e poços e necessidade de revisão das regras de uso da água para irrigação.
O cenário ocorre durante o período normalmente mais seco do ano no Estado e preocupa diante da previsão de temperaturas acima da média e do fortalecimento do El Niño.
Três captações estão em estado crítico
Os reflexos da estiagem já aparecem nos sistemas utilizados para o abastecimento público. Dos 101 pontos de captação acompanhados pela Companhia Espírito-santense de Saneamento (Cesan), 25 estão em situação de atenção e três foram classificados como críticos.
Ao todo, os 28 pontos que exigem acompanhamento estão distribuídos por 17 municípios.
As situações mais graves foram identificadas em:
- Fundão, no Ribeirão Braço do Norte;
- São Roque do Canaã, no Rio Santa Maria do Doce;
- Venda Nova do Imigrante, na Barragem Bananeiras.
Nesses locais, a redução dos níveis dos mananciais já exigiu medidas operacionais para preservar o fornecimento de água. Caso o calor permaneça elevado e as chuvas sejam insuficientes, poderão ocorrer dificuldades em curto prazo.
Também existem captações em situação de atenção na Serra, Afonso Cláudio, Água Doce do Norte, Barra de São Francisco, Conceição da Barra, Conceição do Castelo, Mantenópolis, Pedro Canário, Santa Leopoldina, Santa Maria de Jetibá, Santa Teresa, São Gabriel da Palha, São José do Calçado e Vila Valério, além dos municípios com pontos críticos.
Apesar do alerta, aproximadamente 72% das captações monitoradas continuam operando normalmente. Até o momento, não existe indicação de comprometimento generalizado do abastecimento público no Espírito Santo.
Chuvas ainda não recuperaram rios e solo
As precipitações registradas entre os dias 10 e 16 de agosto interromperam as sequências prolongadas de dias secos em grande parte do Estado. A distribuição, entretanto, foi bastante irregular.
Iconha acumulou 116,2 milímetros durante o período, enquanto Colatina e Itaguaçu registraram somente 3 milímetros. Em Vitória, o volume chegou a 81,6 milímetros.
A chuva superou a perda de água por evapotranspiração em 23 das 33 estações meteorológicas analisadas. O resultado representa reposição hídrica pontual, mas não significa recuperação imediata da umidade do solo, das vazões dos rios ou dos reservatórios.
Antes das chuvas, grande parte do território capixaba havia enfrentado entre 14 e 16 dias consecutivos sem precipitação significativa. No Norte, Noroeste e Centro do Estado, algumas localidades completaram 16 dias secos.
As temperaturas máximas médias nessas regiões ficaram entre 30°C e 34°C, até 2°C acima do padrão histórico.
Vazões permanecem abaixo do esperado
O monitoramento da Agência Estadual de Recursos Hídricos (Agerh) identificou uma leve recuperação dos rios após as chuvas, mas as vazões continuam abaixo do esperado para agosto.
A situação mais delicada permanece na bacia do Rio Santa Joana, onde já existem restrições para o uso da água.
As projeções para o período entre 18 e 24 de agosto indicam tendência de redução das vazões durante parte da semana. Os pontos monitorados em Santa Maria do Doce, Mimoso do Sul e Castelo devem permanecer abaixo da Q90.
A Q90 é uma referência utilizada na gestão dos recursos hídricos e representa uma vazão igualada ou superada durante 90% do período analisado. Quando o nível fica abaixo desse índice, a disponibilidade de água é considerada reduzida.
No Rio Santa Joana, alguns cenários indicam vazões inferiores à metade da Q90, condição que exige maior controle sobre captações destinadas à irrigação, ao consumo animal e a outras atividades produtivas.
Oeste e Noroeste devem receber menos chuva
Para a segunda quinzena de agosto, a previsão aponta acumulados entre 30 e 60 milímetros no Sul e em boa parte da faixa litorânea. No Oeste e no Noroeste, os volumes esperados são menores, variando entre 10 e 20 milímetros.
Os modelos climáticos não apresentam um sinal consistente de chuva abaixo da média no Espírito Santo durante agosto. Para as temperaturas, entretanto, existe maior concordância entre as projeções, com expectativa de calor acima da normalidade em todo o Estado.
O boletim destaca que a intensidade do El Niño, isoladamente, não determina os impactos sobre o território capixaba. A distribuição das chuvas dependerá também da circulação atmosférica regional, das temperaturas do Oceano Atlântico, da umidade acumulada no solo e da regularidade das precipitações durante a transição para a estação chuvosa.
Uma nota técnica elaborada por INPE, Inmet, Funceme e Cemaden já havia indicado probabilidade superior a 95% de permanência do El Niño no segundo semestre de 2026, com possibilidade de intensidade forte ou muito forte e manutenção do fenômeno até o início de 2027. A avaliação pode ser consultada no portal do INPE.
Risco de incêndios aumenta
O ressecamento da vegetação também amplia o risco de incêndios florestais e queimadas em propriedades rurais. Entre os dias 10 e 15 de agosto, os satélites utilizados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais identificaram 187 focos de calor no Espírito Santo.
Linhares liderou o levantamento, com 33 ocorrências, seguido por São Mateus, com 21. No Caparaó, foram registrados 13 focos em Iúna e 12 em Irupi.
A concentração acompanha áreas que passaram por longas sequências sem chuva e apresentaram temperaturas mais elevadas. O período de estiagem no Espírito Santo normalmente se estende de maio a outubro e exige maior mobilização para prevenir incêndios em vegetação.
O CICC El Niño recomenda economia de água, acompanhamento das eventuais restrições de captação e suspensão do uso do fogo em áreas rurais e de vegetação. Qualquer princípio de incêndio deve ser comunicado imediatamente ao Corpo de Bombeiros pelo telefone 193.
