Goma de cajueiro modificada pela Unicamp entra em testes para uso industrial
Tecnologia da Unicamp melhora a capacidade emulsificante da goma de cajueiro. O material entrou em testes para cosméticos, mas ainda não possui produção comercial.

Processo físico melhora a atuação do material como emulsificante; aplicação em cosméticos já é avaliada, mas produção em escala ainda depende de novos estudos
Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) desenvolveram um processo físico que melhora a capacidade emulsificante da goma extraída do cajueiro. A tecnologia pode ampliar o uso dessa matéria-prima em alimentos, cosméticos e outros produtos industriais, mas ainda se encontra em fase de desenvolvimento e avaliação de aplicações.
O trabalho foi conduzido pelo professor Marcelo Cristianini e pela pesquisadora Bruna Castro Porto, da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA), com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
A novidade divulgada pela Unicamp em setembro de 2026 é o avanço da tecnologia para testes com a indústria. A empresa Symrise recebeu amostras por meio de um Acordo de Transferência de Material e avalia o ingrediente em formulações para cuidados com os cabelos, incluindo shampoos e condicionadores direcionados a cabelos cacheados.
A transferência de amostras não significa, entretanto, que o produto esteja disponível comercialmente. O procedimento permite a realização de testes e pesquisas antes de uma eventual adoção industrial.
Processo melhora a estabilidade das emulsões
Emulsificantes são ingredientes que ajudam a misturar e manter estáveis substâncias que normalmente se separam, como água e óleo. Na indústria alimentícia, são empregados, por exemplo, em bebidas, molhos, cremes e emulsões de aromas.
A goma do cajueiro é um polissacarídeo natural formado por moléculas de açúcares e obtido a partir do exsudato liberado pelo caule da planta. Sua composição permite aplicações semelhantes às de outras gomas vegetais.
O processo estudado pela Unicamp utiliza modificação física para alterar as propriedades funcionais do material, sem promover uma transformação química de sua estrutura. Os trabalhos científicos associados à pesquisa analisaram principalmente o emprego de alta pressão dinâmica.
Um estudo publicado em 2015 indicou que o tratamento pode aumentar a solubilidade e reduzir a viscosidade aparente da goma. Em uma pesquisa posterior, publicada em 2018, os pesquisadores observaram melhora na capacidade emulsificante e na estabilidade das emulsões, embora o processo não tenha produzido o mesmo avanço na capacidade de encapsulação.
Esses resultados complementam um trabalho de 2014 que comparou as propriedades emulsificantes da goma de cajueiro com as da goma arábica.
Alternativa nacional à goma arábica
A goma arábica é amplamente utilizada pela indústria, inclusive em emulsões de aromas para bebidas. Sua produção está concentrada principalmente em países africanos e pode ser afetada por condições climáticas, disponibilidade da matéria-prima e variações do mercado internacional.
A pesquisa brasileira busca desenvolver uma matéria-prima renovável de origem nacional que possa atender parte dessas aplicações. Isso não significa que a substituição da goma arábica esteja tecnicamente ou economicamente garantida em todos os produtos.
Cada formulação precisa ser avaliada quanto à estabilidade, sabor, textura, vida útil, segurança, custo e atendimento às normas aplicáveis. A Unicamp ainda não divulgou valores de produção, rendimento industrial ou comparações comerciais completas entre os dois ingredientes.
Possível renda adicional ainda depende de escala
O aproveitamento da goma poderia criar uma nova utilização para o cajueiro, cultura atualmente associada principalmente à castanha e ao pedúnculo empregado na produção de sucos, polpas e outras bebidas.
Segundo a Unicamp, a goma pode ser retirada sem impedir a produção de castanhas e o aproveitamento do pedúnculo. Para que essa possibilidade resulte em renda efetiva no campo, porém, ainda será necessário definir métodos de extração que preservem a sanidade das plantas, padrões de qualidade, produtividade por árvore, custos de coleta e uma cadeia regular de compradores.
Também será necessário assegurar uniformidade entre os lotes. Ingredientes destinados às indústrias alimentícia e cosmética precisam apresentar composição e desempenho previsíveis, além de cumprir requisitos sanitários e regulatórios.
Por isso, a tecnologia representa atualmente uma possibilidade de diversificação da cadeia do caju, e não uma fonte de renda imediatamente disponível aos produtores.
Tecnologia precisa avançar em volume e validação
Entre os próximos passos está a otimização do processo para produzir quantidades maiores de amostras. Esse aumento de escala permitirá ampliar os testes em formulações industriais e avaliar a repetibilidade dos resultados.
Os pesquisadores também pretendem estudar a aplicação do processo em outros polissacarídeos naturais. Marcelo Cristianini e Bruna Castro Porto foram reconhecidos na categoria Propriedade Intelectual Licenciada do Prêmio Inventores Unicamp 2026.
Os detalhes sobre a parceria industrial, o estágio de desenvolvimento e as aplicações avaliadas estão disponíveis na publicação oficial do Jornal da Unicamp.
Autoria: Redação Valor do Agro
Fonte e transparência: Matéria elaborada com informações da Unicamp e de artigos científicos publicados pelos pesquisadores entre 2014 e 2018. A tecnologia permanece em desenvolvimento; não foram divulgados custos, capacidade industrial, rendimento da extração ou prazo para chegada ao mercado. Consulta realizada em 16 de setembro de 2026. Fotografias originais: Igor Alisson/Inova Unicamp.
