Ferramenta avalia se tecnologias digitais são viáveis para cada propriedade rural
Metodologia da Embrapa e Unicamp avalia se tecnologias digitais são viáveis para cada propriedade, considerando custos, conectividade, infraestrutura e perfil do produtor.

Metodologia desenvolvida pela Embrapa e pela Unicamp analisa custos, infraestrutura, perfil do produtor e condições do campo antes da adoção de uma inovação
Sensores, drones, softwares e sistemas de inteligência artificial estão avançando no agronegócio. Entretanto, uma tecnologia capaz de apresentar bons resultados em determinada propriedade pode não funcionar da mesma forma em outra.
Para ajudar produtores, investidores e desenvolvedores a tomarem decisões mais seguras, pesquisadores da Embrapa e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) desenvolveram uma metodologia que estima a viabilidade de adoção de tecnologias digitais em diferentes realidades agrícolas.
O instrumento considera não apenas o funcionamento da inovação, mas também as condições da propriedade, a conectividade disponível, o perfil do produtor e o retorno econômico esperado.
O trabalho está vinculado ao Centro de Ciência para o Desenvolvimento em Agricultura Digital, o Semear Digital, e foi apresentado em artigo científico.
Avaliação pode evitar investimentos inadequados
Segundo Luciana Romani, pesquisadora da Embrapa Agricultura Digital e coordenadora de parcerias do Semear Digital, a ferramenta foi criada para apoiar decisões de produtores, extensionistas, empresas, investidores e instituições públicas.
A metodologia atribui uma nota de viabilidade para a utilização da tecnologia em determinado contexto agrícola.
“Com uma nota de viabilidade, o produtor rural e os extensionistas podem avaliar se a tecnologia será, de fato, útil para a propriedade”, explica.
O resultado também pode orientar investimentos públicos e privados, além de ajudar os desenvolvedores a adaptar produtos ainda durante as fases de pesquisa e criação.
Ferramenta cruza tecnologia e realidade da propriedade
A análise considera os requisitos de funcionamento de softwares e equipamentos e compara essas exigências com as condições encontradas no campo.
Entre os fatores avaliados estão:
- Infraestrutura de energia elétrica e internet;
- Características geográficas e relevo da propriedade;
- Perfil e habilidades digitais do produtor;
- Custos de implantação e operação;
- Possibilidade de retorno econômico;
- Impactos no consumo de água e na geração de resíduos;
- Condições jurídicas e situação da posse da terra.
Segundo Thais Dibbern, docente da Faculdade de Ciências Aplicadas da Unicamp e pesquisadora associada ao Semear Digital, o objetivo é identificar se uma solução possui condições reais de funcionar em um ambiente agrícola específico.
A avaliação também considera a confiança do produtor na tecnologia e sua disposição para modificar processos já utilizados na propriedade.
Estudo analisou 814 publicações científicas
O desenvolvimento da metodologia ocorreu em cinco etapas. Inicialmente, os pesquisadores analisaram 814 publicações científicas relacionadas à adoção de tecnologias digitais. Desse total, 20 estudos de caso foram selecionados para uma avaliação mais aprofundada.
A equipe também estudou dez índices e indicadores utilizados por instituições brasileiras e internacionais, incluindo o Índice de Digitalização da Agricultura, do Banco Mundial, e o Ambitec-Agro, desenvolvido pela Embrapa.
O levantamento ajudou a identificar as principais variáveis relacionadas à adoção tecnológica e mostrou que ainda não existia uma metodologia com a mesma proposta de avaliação integrada.
Em seguida, os pesquisadores mapearam as barreiras e os fatores que influenciam a utilização das inovações no campo.
Especialistas ajudaram a validar metodologia
O instrumento foi submetido à avaliação de 22 profissionais das áreas de agronomia, engenharia, ciência da computação e estatística.
Os especialistas auxiliaram na definição dos pesos de cada variável e na construção das fórmulas utilizadas para chegar ao resultado final. A escala de avaliação varia de 1 a 5, indicando diferentes níveis de viabilidade.
Após essa etapa, a metodologia foi testada com duas tecnologias desenvolvidas no ecossistema da Embrapa: o software Aquicultura Certa e um equipamento para contagem de frutas durante a colheita.
Software para piscicultura obteve avaliações diferentes
O Aquicultura Certa é uma ferramenta destinada à gestão da piscicultura. Na prova de conceito, a tecnologia recebeu nota 3 dos desenvolvedores, indicando viabilidade moderada.
Entre os potenciais usuários que já testavam o sistema, a nota chegou a 4.
A diferença mostrou que desenvolvedores e produtores podem ter percepções distintas sobre uma mesma solução. Ao considerar propriedades com baixa conectividade, os responsáveis pelo software identificaram barreiras que não estavam presentes entre os usuários já atendidos por energia elétrica e internet.
Segundo os pesquisadores, essa divergência não representa uma falha na avaliação. Ela oferece informações importantes sobre os ambientes nos quais a tecnologia poderá ter maior ou menor possibilidade de adoção.
Contador de frutas alcançou nota 4
A segunda tecnologia analisada foi um equipamento acoplado a uma sacola de colheita. O dispositivo conta automaticamente as frutas recolhidas e ajuda a identificar as árvores mais produtivas.
O equipamento recebeu nota 4 tanto dos desenvolvedores quanto dos potenciais usuários.
Como utiliza comunicação autônoma por Bluetooth e exige pouca infraestrutura adicional, a ferramenta apresentou menos barreiras de adoção. O resultado indicou uma percepção semelhante entre quem desenvolve e quem utiliza a solução.
Metodologia poderá se transformar em aplicativo
Atualmente, a ferramenta funciona em uma planilha eletrônica. A intenção dos pesquisadores é transformá-la em um aplicativo ou uma plataforma digital de amplo acesso.
Antes disso, será realizada uma nova rodada de validação. A equipe pretende incluir outros aspectos na avaliação, como facilidade de uso e possíveis impactos sobre o bem-estar animal.
O aprimoramento poderá aumentar a precisão das análises e evitar que produtores invistam em equipamentos ou sistemas incompatíveis com as condições de suas propriedades.
Startups e políticas públicas também podem utilizar ferramenta
A metodologia também poderá ser aplicada por startups durante o desenvolvimento de novas soluções para o agronegócio.
Segundo Luciana Romani, uma avaliação realizada ainda no início de um projeto pode indicar a necessidade de mudar a proposta, o público-alvo ou a forma de utilização da tecnologia. Esse processo é conhecido como pivotagem.
Para o poder público, o instrumento poderá ajudar a identificar barreiras recorrentes, como falta de conectividade, necessidade de capacitação e ausência de suporte técnico.
Com essas informações, os investimentos poderão ser direcionados para regiões e ações capazes de criar melhores condições para a digitalização das propriedades rurais.
Fonte: Embrapa Agricultura Digital, Unicamp e Centro Semear Digital.
