Secagem de café com gás natural indica ganho de produtividade em teste no Espírito Santo
Projeto-piloto em Linhares indicou rendimento 4,15% maior e redução das notas de fumaça no café seco com gás natural. Pesquisa ainda avalia custos e viabilidade.

Projeto-piloto realizado em Linhares avaliou 9,4 mil sacas de conilon e apontou rendimento 4,15% maior, além da redução de notas de fumaça; resultados ainda são preliminares
Resultados preliminares de um projeto-piloto indicam que o gás natural pode se tornar uma nova alternativa para a secagem do café conilon no Espírito Santo. Os testes apontaram maior rendimento, controle mais preciso da temperatura e redução significativa da presença de notas de fumaça na bebida.
Os dados foram apresentados durante o Vitória Coffee Summit 2026, realizado no Cais das Artes, em Vitória. O encontro reuniu representantes do Brasil, Vietnã, Estados Unidos e Colômbia para discutir inovação, sustentabilidade, logística e transformações no mercado cafeeiro.
A pesquisa é desenvolvida pela ES Gás em parceria com o Centro do Comércio de Café de Vitória (CCCV), Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), JDE Peet’s e Base 27, com aprovação e acompanhamento da Agência de Regulação de Serviços Públicos do Espírito Santo (ARSP).
Os testes começaram durante a safra de conilon de 2026 na Fazenda Chapadão, em Linhares, sob condições reais de produção. O gás natural utilizado no processo é transportado até a propriedade por meio de carreta.
Pesquisa compara secadores a gás e a lenha
Com investimento de aproximadamente R$ 1,1 milhão e duração prevista de 12 meses, o projeto compara três secadores alimentados a gás natural com outros três que utilizam lenha.
Entre maio e agosto, aproximadamente 9.400 sacas passaram pelo experimento. Durante esse período, os pesquisadores acompanharam indicadores como temperatura, consumo de gás, tempo de secagem, maturação dos frutos e características laboratoriais e sensoriais do café.
No recorte apresentado durante o evento, os resultados foram os seguintes:
IndicadorGás naturalLenhaFaixa de temperatura analisada120°C a 140°C150°C a 250°CRendimento observado39,73 sacas38,15 sacas
A diferença representa um ganho potencial de 4,15% no rendimento da secagem a gás. Em uma produção de 10 mil sacas, a projeção equivaleria a 415 sacas adicionais.
Os números, entretanto, não devem ser interpretados como um resultado garantido para todas as propriedades. O projeto permanece em andamento, e o desempenho pode variar conforme o modelo do secador, a umidade inicial, a maturação dos frutos, o manejo operacional e as condições climáticas.
Controle de temperatura pode reduzir perdas
Outra vantagem observada foi a possibilidade de controlar a temperatura com maior precisão. Os ensaios indicaram que a faixa entre 120°C e 160°C apresentou os menores níveis de consumo, com tempo de secagem entre 13 e 17 horas.
A média registrada foi de 13,76 metros cúbicos de gás natural por saca. De acordo com as estimativas apresentadas, o controle térmico também pode evitar perdas de até 1,6 saca por batelada.
No sistema tradicional, a alimentação das fornalhas a lenha exige acompanhamento manual e contínuo. O produtor também precisa organizar a compra, o transporte e o armazenamento do combustível, além de lidar com oscilações de temperatura e riscos ergonômicos para os trabalhadores.
A utilização do gás pode facilitar a automação e a padronização do processo. A pesquisa ainda deverá avaliar, contudo, os custos totais da tecnologia, incluindo equipamentos, combustível, transporte, manutenção e distância da propriedade em relação à rede de distribuição.
Notas de fumaça caem de 27% para 1%
Os resultados sensoriais também chamaram atenção. Nas análises conduzidas pela JDE Peet’s, a incidência de notas de fumaça caiu de 27% nos cafés avaliados no sistema convencional para 1% nas amostras secas com gás natural.
Além disso, 93% das amostras submetidas à nova tecnologia alcançaram perfil sensorial classificado como “Neutro” ou superior. Desse total, 51% receberam as classificações Neutro+ ou Neutro++, associadas a bebidas mais limpas e com maior preservação das características originais dos grãos.
O resultado sugere que o controle da combustão e da temperatura pode reduzir a contaminação do café pela fumaça. A melhoria abre possibilidades de valorização comercial, especialmente em mercados que exigem maior regularidade e qualidade sensorial.
Os indicadores foram divulgados como preliminares e ainda precisam ser consolidados durante as próximas etapas da pesquisa. CNN Brasil e Conexão ES também acompanharam a apresentação do projeto.
Tecnologia será testada em novas regiões
A próxima etapa deverá ampliar os estudos para propriedades localizadas no entorno de Linhares e São Mateus. Também está prevista uma parceria com a Secretaria de Estado da Agricultura (Seag) para mapear secadores instalados próximos à rede de distribuição da ES Gás.
Esse levantamento será importante para identificar onde a tecnologia poderá apresentar maior viabilidade operacional e econômica. Nas propriedades mais afastadas, o custo do transporte rodoviário do gás poderá influenciar a decisão de investimento.
A parceria para desenvolver a tecnologia foi anunciada pela ES Gás e pelo CCCV no fim de 2025, com o objetivo de avaliar uma alternativa que aumente a eficiência e a padronização do pós-colheita. O projeto foi detalhado pelo CCCV.
Embora possa reduzir a fumaça e melhorar o controle do processo, o gás natural é um combustível fóssil. Por isso, a avaliação ambiental definitiva deverá considerar emissões, eficiência energética, origem da lenha substituída e logística de abastecimento.
Os primeiros dados mostram que a inovação pode contribuir para elevar a produtividade e a qualidade do café capixaba. A adoção comercial, porém, dependerá da conclusão dos estudos e da comprovação de viabilidade técnica, econômica, ambiental e operacional em diferentes propriedades.
