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Produção de batata cresce 20% na África, mas clima e pragas ameaçam avanço

Produção de batata cresceu 20% na África entre 2019 e 2023, mas clima extremo, pragas e cadeias frágeis ameaçam renda e segurança alimentar.

Tiago Francisco de Jesus09/09/20264 min de leitura
Produção de batata cresce 20% na África, mas clima e pragas ameaçam avanço
Imagem ilustrativa gerada por IA

Cultura ajuda a sustentar pequenos produtores e amplia a oferta de alimentos, enquanto projeto regional busca melhorar o diagnóstico e o controle de ameaças fitossanitárias

Por Redação Valor do Agro

A produção de batata na África cresceu 20% entre 2019 e 2023, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). O avanço reforçou a participação do tubérculo na alimentação e na geração de renda, mas está ameaçado por eventos climáticos extremos, pragas, doenças e cadeias de valor ainda pouco desenvolvidas.

Na África Subsaariana, a FAO estima que aproximadamente 33 milhões de pequenos agricultores dependam de culturas como a batata para obter alimento e renda. O número engloba produtores que trabalham com diferentes culturas, não sendo uma contagem exclusiva de bataticultores.

Em geral, esses agricultores cultivam propriedades com menos de um hectare e possuem acesso limitado a sementes de qualidade, assistência técnica, irrigação, armazenagem e mercados estruturados. Por isso, perdas na lavoura podem comprometer simultaneamente a renda familiar e a disponibilidade local de alimentos.

Em escala mundial, mais de 1 bilhão de pessoas consomem batata, conforme a FAO. Além do consumo in natura, o tubérculo é utilizado na produção de farinha, amido, bebidas e outros produtos industriais.

Cultura ganha importância diante da insegurança alimentar

O avanço da batata ocorre em um cenário de forte pressão sobre a segurança alimentar. O Relatório Global sobre Crises Alimentares de 2026 registrou 266 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar aguda em 47 países e territórios durante 2025.

Segundo o levantamento, 35,5 milhões de crianças menores de cinco anos enfrentaram desnutrição aguda nas áreas analisadas. Conflitos, eventos climáticos extremos, choques econômicos e redução da ajuda humanitária estiveram entre os principais fatores associados ao problema. Os números foram divulgados pelo Programa Mundial de Alimentos e demais instituições responsáveis pelo relatório.

Nesse contexto, a batata é considerada estratégica por apresentar diferentes formas de consumo e processamento e poder ser cultivada em sistemas de pequena escala. O fortalecimento da cultura, entretanto, depende de investimentos que ultrapassam o aumento da área plantada.

Pragas avançam na África Oriental e Austral

Um dos principais riscos está relacionado aos nematoides do cisto da batata, conhecidos internacionalmente pela sigla PCN. Esses organismos atacam as raízes, prejudicam o desenvolvimento das plantas e podem permanecer no solo por longos períodos.

O problema se torna mais complexo porque o solo aderido a batatas, máquinas, equipamentos e outros materiais pode contribuir para a dispersão da praga. Doenças bacterianas provocadas por organismos dos gêneros Pectobacterium e Dickeya também preocupam os serviços de defesa vegetal.

Documentos do Fundo para a Aplicação de Normas e o Desenvolvimento do Comércio (STDF) indicam que pragas quarentenárias já foram detectadas em alguns países da África Oriental e Austral. Ao mesmo tempo, ainda faltam informações sobre sua distribuição em parte da região.

A resposta inclui um projeto regional voltado ao fortalecimento da inspeção, do diagnóstico e das medidas fitossanitárias. A iniciativa envolve Burundi, Etiópia, Quênia, Lesoto, Malawi, Moçambique, Ruanda, Sudão do Sul, Uganda, Tanzânia, Zâmbia e Zimbábue.

Entre as ações previstas estão a harmonização de protocolos, capacitação de laboratórios, vigilância fitossanitária, produção de sementes certificadas e definição de áreas livres de pragas. O documento técnico do STDF também recomenda ampliar a conscientização dos produtores sobre os riscos do transporte de batatas e solo contaminado.

Cooperação busca estruturar a cadeia produtiva

Botsuana, Eritreia e Lesoto escolheram a batata como produto agrícola prioritário dentro da iniciativa Um País, Um Produto Prioritário, conhecida pela sigla OCOP. O Peru, país localizado na região de origem do tubérculo, também selecionou a cultura.

O programa da FAO busca estruturar toda a cadeia de valor, desde a disponibilidade de sementes até o processamento e a comercialização. A organização também promove uma cooperação entre Lesoto e Peru para compartilhar conhecimentos sobre produção, variedades e organização da cadeia.

A estratégia está alinhada ao tema do Dia Internacional da Batata de 2026, que destacou o papel da cultura na redução da pobreza, na resiliência dos agricultores e no desenvolvimento de sistemas agroalimentares mais inclusivos.

Diversidade genética e inovação

A proteção das variedades tradicionais é outra frente considerada essencial. Materiais genéticos conservados por comunidades indígenas e locais podem fornecer características importantes para o desenvolvimento de plantas mais adaptadas à seca, ao calor, ao frio e às doenças.

A Comissão de Recursos Genéticos para a Alimentação e a Agricultura e o Tratado Internacional sobre Recursos Fitogenéticos apoiam a conservação e o compartilhamento desses materiais para pesquisa e melhoramento vegetal.

Tecnologias como biotecnologia e edição genética também são apontadas como ferramentas capazes de acelerar o desenvolvimento de variedades resistentes. Entretanto, o material divulgado pela FAO não informa quais cultivares estão próximas de chegar aos agricultores, nem apresenta prazos, custos ou resultados comerciais dessas tecnologias.

O que ainda falta saber

Os dados disponíveis não detalham quanto da expansão africana ocorreu pelo aumento da área plantada e quanto resultou de ganhos de produtividade. Também não quantificam as perdas econômicas provocadas pelos nematoides e pelas doenças bacterianas em cada país.

O projeto fitossanitário possui abrangência regional, mas seus resultados dependerão da capacidade de manter laboratórios, fiscalização, produção de sementes certificadas e assistência aos agricultores depois do encerramento dos financiamentos internacionais.

O material também não aponta impacto direto sobre a produção ou o mercado brasileiro de batata. Para o Brasil, a experiência funciona principalmente como referência sobre a importância da defesa vegetal, da qualidade das sementes e da coordenação entre países diante de pragas capazes de atravessar fronteiras.

Transparência editorial: matéria elaborada pela Redação Valor do Agro com base em informações da FAO, do Relatório Global sobre Crises Alimentares de 2026 e em documentos técnicos do STDF. Não houve acompanhamento de campo nem entrevistas próprias com agricultores ou representantes dos países mencionados.

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