Plantio direto favorece formigas benéficas e fortalece equilíbrio das lavouras
Estudo aponta benefícios no controle de pragas, na remoção de sementes de plantas daninhas e na melhoria da estrutura do solo. A adoção do plantio direto pode favorecer comunidades de formigas e ampliar serviço.

Estudo aponta benefícios no controle de pragas, na remoção de sementes de plantas daninhas e na melhoria da estrutura do solo
A adoção do plantio direto pode favorecer comunidades de formigas e ampliar serviços ecológicos importantes para as lavouras. Ao evitar o revolvimento intenso do solo, o sistema preserva ninhos, túneis e rotas de alimentação, permitindo que esses insetos permaneçam ativos durante diferentes fases das culturas.
Entre os principais benefícios estão a predação de pragas, a remoção de sementes de plantas daninhas e a formação de canais que facilitam a circulação de água, ar e nutrientes no solo. As conclusões fazem parte de um estudo desenvolvido por pesquisadores da Pennsylvania State University e da University of Illinois.
O trabalho reuniu resultados de diferentes regiões e analisou a função das formigas em sistemas agrícolas com pouca mobilização do solo. Segundo os pesquisadores, áreas conduzidas sob plantio direto apresentaram maior abundância, diversidade de espécies e atividade predatória quando comparadas às lavouras submetidas ao preparo convencional.
Revolvimento do solo prejudica as colônias
Operações como aração e gradagem podem destruir ninhos, interromper galerias subterrâneas e reduzir as populações de formigas. O plantio direto, por outro lado, mantém essas estruturas e oferece maior estabilidade para a instalação e permanência das colônias.
Um levantamento realizado em 90 áreas agrícolas da Carolina do Norte e da Virgínia, nos Estados Unidos, identificou diferenças importantes entre os sistemas de manejo. Das 17 espécies mais comuns registradas, 13 apareceram com maior frequência em áreas conduzidas com práticas conservacionistas.
Resultados obtidos no Brasil seguem a mesma tendência. Um dos estudos analisados registrou 16 espécies de formigas em áreas de plantio direto, enquanto o sistema convencional apresentou nove. As parcelas sem revolvimento também tiveram maior atividade predatória.
Controle natural de pragas
Muitas espécies de formigas consomem ovos, larvas e outros estágios de insetos que podem causar danos às culturas. Como as colônias permanecem ativas durante boa parte da estação de crescimento, elas ajudam a manter a pressão sobre as pragas mesmo em períodos com menor presença de outros inimigos naturais.
O benefício não depende apenas da predação. A movimentação das formigas pelas plantas pode interromper a alimentação e a postura de insetos herbívoros. Sinais químicos deixados no ambiente também podem afastar determinadas espécies.
Além disso, as galerias subterrâneas facilitam o acesso a pragas localizadas no solo ou sob a palhada, incluindo larvas de lagartas-rosca e besouros.
Os pesquisadores alertam, entretanto, que os efeitos variam conforme as espécies presentes. Algumas formigas mantêm relações com pulgões e outros insetos sugadores, alimentando-se das secreções açucaradas produzidas por eles. Em determinadas situações, essa interação pode proteger as pragas contra predadores e aumentar suas populações.
Por isso, a composição da comunidade de formigas deve ser avaliada antes da adoção de estratégias destinadas à sua conservação.
Remoção de sementes de plantas daninhas
Outro serviço associado às formigas é a retirada de sementes da superfície. Espécies granívoras transportam esse material para ninhos ou depósitos subterrâneos, reduzindo potencialmente o banco de sementes de plantas daninhas.
Em áreas agrícolas do leste da Espanha, o plantio direto apresentou maior remoção dessas sementes e maior quantidade de ninhos da espécie Messor barbarus. Em outra região espanhola, a realização anual da aração eliminou a presença de Messor capitatus nas lavouras avaliadas.
Galerias favorecem infiltração de água
A construção de ninhos também modifica as características físicas e biológicas do solo. As galerias formam bioporos que facilitam a infiltração e a drenagem da água, o transporte de nutrientes e o crescimento das raízes.
Experimentos citados no estudo identificaram uma taxa de infiltração mais de 20 vezes superior nas proximidades das entradas dos ninhos, em comparação com pontos sem a presença dessas estruturas.
Outro trabalho verificou aumento de 36% na produtividade do trigo após a atuação conjunta de formigas e cupins em uma região de clima seco. Os pesquisadores relacionaram o resultado à maior infiltração de água proporcionada pelos túneis.
Plantas de cobertura ampliam os benefícios
A utilização de plantas de cobertura pode reforçar os efeitos positivos do plantio direto. A vegetação oferece abrigo, aumenta a disponibilidade de alimento e eleva a quantidade de matéria orgânica no solo.
Uma pesquisa realizada no sudoeste de Michigan avaliou rotações orgânicas de milho, soja e trigo associadas às plantas de cobertura. Nessas áreas, as formigas mantiveram atividade moderada durante a estação de crescimento. Nas parcelas convencionais, o forrageamento ocorreu principalmente depois da colheita.
A presença das formigas durante o desenvolvimento das culturas duplicou o potencial de controle de pragas nos períodos analisados.
Uso de inseticidas exige atenção
A conservação das colônias também está relacionada ao manejo dos defensivos. Inseticidas de amplo espectro e produtos sistêmicos podem provocar efeitos letais ou comprometer o comportamento e a reprodução das formigas.
Tratamentos de sementes, aplicações no solo e pulverizações foliares podem reduzir a abundância e a diversidade desses insetos ao longo do ciclo produtivo.
Como alternativa, os pesquisadores destacam o manejo integrado de pragas. Uma análise envolvendo 34 culturas mostrou que a adoção de níveis de ação reduziu em 44% o número de aplicações de inseticidas, sem comprometer o controle das pragas ou a produtividade.
Integração de práticas conservacionistas
O estudo recomenda combinar plantio direto, plantas de cobertura e manejo integrado de pragas. A estratégia preserva os ninhos, amplia os recursos disponíveis no ambiente e diminui aplicações desnecessárias de inseticidas.
Apesar dos resultados positivos, ainda são necessários estudos para medir o impacto econômico desses serviços em lavouras anuais. As próximas pesquisas deverão avaliar se a atuação das formigas consegue manter pragas como lagartas-rosca, larvas-arame e lesmas abaixo dos níveis de dano econômico.
Também será necessário quantificar os efeitos sobre a infiltração de água, a remoção de sementes de plantas daninhas e o retorno financeiro das práticas conservacionistas.
